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"RISCO SOBRE 2 RODAS": Com frota em crescimento, motos já matam mais que carros em Brasilia

Além de ser uma opção de transporte, a moto se tornou uma fonte de renda. Tal realidade impulsionou a frota e também o número de acidentes. Dos 45 mil óbitos no trânsito em um ano, 12 mil trafegavam sobre duas rodas e 10 mil, em carros

O medo de perder a vida no asfalto é uma constante na vida do motoboy Marcos Tadeu Botelho de Souza, 34 anos. Diariamente ele precisa superar os temores, subir na moto e garantir o sustento da família. Durante cinco anos, a entrega de pizza apenas incrementava os rendimentos. Mas, desde que perdeu o emprego de auxiliar de serviços gerais, há seis meses, o bico sobre as duas rodas virou a atividade principal e única fonte de salário.

Seja qual for a razão, a opção pelo deslocamento sobre duas rodas já mata mais no Brasil do que os automóveis. Mesmo com uma frota duas vezes menor, das 45 mil mortes anuais no país, 12 mil são de motociclistas e 10 mil, de ocupantes de automóveis. 


No caso de Marcos, dois fatores pesaram na compra: a péssima oferta de ônibus e metrô, além da necessidade de obter a renda. Morador de Samambaia, ele reconhece na pele os riscos nas ruas. “Somente este mês, caí duas vezes. Por sorte, tive apenas arranhões. Mas, como não tenho instrução, só o segundo grau, é o que dá para fazer hoje”, lamenta. A história de Marcos coincide com a de muitos usuários de motos. E o medo dele se justifica.


No Distrito Federal, as vítimas mais recorrentes são aquelas que usam a moto como meio de transporte ou para o lazer. Os motociclistas profissionais representam 14,6% dos mortos. De modo geral, 86% têm o ensino fundamental ou o médio. “Eles compraram moto para alguma atividade de trabalho ou para fugir do transporte público, que encareceu muito nos últimos anos e é ruim”, detalha Carlos Henrique Carvalho, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Nos últimos quatro anos — 2016 segue a mesma tendência —, os motociclistas ocuparam o segundo lugar entre os mortos nas vias de Brasília. Perdem apenas para os pedestres, a parcela mais vulnerável dos integrantes do sistema viário.

O dado mais recente do Departamento de Trânsito (Detran) sobre acidentes com  motos revela que 80% dos óbitos em vias urbanas foram de motociclistas e 15%, de pedestres. Metade das vítimas tinha, no máximo, 31 anos.


 

Acessibilidade com riscos

Somente entre janeiro e setembro deste ano, 77 pessoas perderam a vida em acidentes com motos. Entre eles, Carlos André Pereira de Sousa, 21 anos. Em julho, o jovem se envolveu em um acidente com um caminhão na BR-020, sentido Planaltina-Sobradinho. Em agosto, o militar do Exército Yuri do Prado Guimarães morreu numa colisão envolvendo um carro e um caminhão, na Estrada Parque Núcleo Bandeirante (EPNB).


O servidor Célio Souza Vasconcelos Ferreira, 50 anos, há dois anos, vive o drama da reabilitação após um grave acidente de moto a caminho de Goiânia. Após três meses na UTI e um semestre na cadeira de rodas, ele ainda necessita de uma bengala para andar. Já fez quatro cirurgias e ainda passará por mais duas.

Quando pensou que estava superando, teve outra surpresa. Somente este ano descobriu uma fratura grave em três vértebras, também resultado do acidente. “Acordei no hospital de Anápolis. Vim transferido para Brasilia e fiquei três meses na UTI. Quebrei a bacia e os dois pés. Tive que alugar uma cama hospitalar e contratei uma enfermeira. Ainda não recuperei as forças da perna esquerda e meu equilíbrio está comprometido. Estou me recuperando aos poucos”, conta. Célio ainda sente vontade de pilotar moto. Mas não pode. “Qualquer tombinho pode me deixar numa cadeira de rodas por conta da fratura das vértebras”, lamenta.



Para alguns, a moto é a chance de mudar de vida. Aos 28 anos, Igor Ferreira viu na profissão de motoboy a oportunidade de virar dono do próprio negócio. Migrou para o Distrito Federal há sete anos, vindo de Nova Iorque, interior do Maranhão, onde grande parte das pessoas pilota sem habilitação, sem capacete e antes de completar 18 anos.

Aos 23 anos, Igor comprou a primeira moto para trabalhar como motoboy terceirizado de um laboratório. Um tempo depois, assumiu o contrato de prestação de serviço e contratou três motoboys para ajudá-lo. Para quem chegou com a roupa do corpo, a vida está melhor. Mas o risco é uma constante. “A começar pelos próprios motociclistas. Alguns, mais apressados, ultrapassam a gente no corredor, em alta velocidade. Os carros não respeitam também. Mas é melhor aqui do que em Nova Iorque”, compara.  



O relato de Igor sobre o trânsito na cidade natal revela uma realidade comprovada em pesquisa. Eduardo Vasconcelos, da Associação Nacional dos Transportes Públicos (ANTP), diz que um estudo sobre a motocicleta na América Latina revela que uma das causas para a explosão da frota é a liberdade e a acessibilidade para quem a adota como meio de transporte. “Ela é barata na aquisição e gasta pouca gasolina. Muitos deixaram o transporte coletivo e passaram a usar a motocicleta. Nas cidades do Norte e do Nordeste, é comum o uso sem equipamentos mínimos de segurança e também o  transporte de crianças”, adverte o assessor.


Uma das consequências mais graves desse modelo é o incremento da violência no trânsito. No livro Risco no trânsito, omissão e calamidade — impactos do incentivo à motocicleta no Brasil,  Eduardo Vasconcelos revela que, entre 1998 e 2013, 2 milhões de pessoas foram afetadas de forma trágica pela violência dos acidentes sobre duas rodas. Desse total, 220 mil morreram e 1,6 milhão sobreviveram com alguma deficiência física para a vida toda.


 

Opção barata e ágil

Do ponto de vista econômico, a opção pelas motos revela momentos opostos da economia brasileira. O crescimento da economia, entre 2002 e 2012, deu a oportunidade para muitas famílias comprarem o primeiro meio de transporte individual, e, por ser mais barata, a escolha de muitos foi pela moto. E, a partir de 2013, quando a crise deu os primeiros sinais, ela continuou atrativa pela mesma razão. A prestação cabe no orçamento cada dia mais apertado.

O economista Fábio Bentes, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), explica que, apesar de as taxas de juro e o prazo de financiamento serem praticamente os mesmos para carros e motos, a segunda opção tem uma prestação muito menor e, por isso, é mais atrativa.


Para explicar, Bentes faz a simulação de compra de um carro popular de cerca de R$ 30 mil e de uma moto na faixa de R$ 10 mil. O preço do automóvel recuou 0,4% no último ano, segundo o IPCA. A taxa média de juros para aquisição do carro se manteve estável na casa de 1,9% ao mês, assim como o prazo de financiamento. “Com perspectivas sombrias, a confiança do consumidor em baixa e com a queda do rendimento médio das famílias, as motos continuam sendo a opção mais atraente, mesmo com os preços 7,5% mais caros em função do aumento da demanda”, afirma.

 

Fonte: *Via CB-Clipping

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