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MEDICINA BRASILIENSE: Primeiro transplante de coração na capital federal completa sete anos

Há sete anos, Marcela entrou para a história da medicina no Distrito Federal: ela foi a primeira criança a receber um transplante de coração na capital. Hoje, aos 8 anos, é uma menina cheia de energia e de planos

Nos últimos sete anos, as batidas no peito de Marcela Pereira Pires, 8 anos, é de um coração transplantado — o primeiro da capital federal em uma criança. Desde aquele dezembro de 2009, a vida e a rotina da casa simples, na Estância 1 Mestres D’Armas, em Planaltina, mudou drasticamente.
O desespero e a angústia deram lugar à felicidade e à esperança. Apesar das dificuldades motoras, a garota se desenvolve bem e frequenta regularmente a escola. O Correio revisitou o caso para mostrar como vive a menina. Após Marcela, outras 20 crianças passaram pelo procedimento no Instituto de Cardiologia do Distrito Federal (ICDF).

Para recontar o drama e a superação da menina, a família de Marcela esperava a equipe de reportagem com café fresco. A casa humilde, de três cômodos  e piso vermelho, estava organizada — a tarefa é difícil para um ambiente frequentado por crianças. Além dos dois irmão de Marcela, na última quinta-feira, três primos estavam no pequeno quintal de cimento rústico. A garota se destacava por ser a mais agitada.

 
Quem viu a mãe de Marcela, Karen Pereira Pires, 25 anos, chorar no passado tem uma grata surpresa. Apesar da timidez, ela não nega um sorriso. “Em 2016, ela não ficou internada nenhuma vez. Em 2010, por exemplo, foram seis hospitalizações. Marcela vai longe.” Neste momento, a menina interrompe a conversa. Ela quer folhas e lápis para ser fotografada desenhando. “Essa é uma das atividades preferidas dela”, completa Karen, ao entregar uma pasta à menina.

 
Contando lições de superação, a família remexe em um período de extrema dificuldade (leia Memória). Quando Marcela chegou ao Hospital Regional de Planaltina, a primeira suspeita foi de gripe H1N1. Naquele ano, a doença provocou uma epidemia no país. Na verdade, ela estava com pneumonia. Exames posteriores revelaram o inchaço do coração. “Os médicos logo fecharam o diagnóstico e ressaltaram que a solução seria o transplante”, detalha Karen.

As semanas seguintes ficaram marcadas pela peregrinação por cinco hospitais, sendo dois particulares. Era cada vez mais urgente a necessidade de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). A cada dia, a miocardiopatia dilatada desencadeava mais complicações. “Outros órgãos estavam sendo comprometidos e o coração já não funcionava. Muita gente perguntou se eu tinha esperança que ela sobreviveria”, salienta.

Karen nunca perdeu as esperanças, nem mesmo quando Marcela sofreu um acidente vascular cerebral com 1 ano e 6 anos meses (antes do transplante). A menina ficou com o lado esquerdo afetado e a fala e a locomoção, comprometidas. “Não terminei os estudos para me dedicar aos meus filhos. Minha vida é boa, não tenho do que me queixar”, acrescenta. Até hoje, ela se lembra das primeiras palavras de Marcela depois da cirurgia: foram para pedir água à mãe.

Rotina
Às 7h, Marcela toma o primeiro remédio. Depois, volta a dormir. O café é servido às 9h. Nem sempre o sono é tranquilo. Crises convulsivas se intensificaram há algum tempo. O problema é controlado com medicações mais fortes. “Ela não exige grande atenção. Corre, brinca”, garante Karen. Atualmente, Marcela faz consultas médicas a cada três meses — houve uma época que eram semanais. A expectativa é que, este mês, a equipe que acompanha a menina reduza para encontros semestrais.

Marcela estava comendo um pedaço de pão quando a mãe se sentou na cadeira para falar sobre os desafios do futuro. Um deles é a educação da menina. Ela estuda no Caic Assis Chateaubriand, escola pública no Setor Residencial Leste, em Planaltina. Para chegar lá, gasta uma hora de ônibus. “Ela  terá aulas numa turma de 18 alunos. O ideal seria que fosse de 10. Tentamos uma recomendação médica, mas não conseguimos. Quando a classe é cheia, ela fica nervosa e dificulta a aprendizagem.”


A família sobrevive com R$ 800 do benefício social de Marcela. A renda é complementada com os bicos de pintor do padrasto da menina, Frederico Victor de Sousa dos Santos, 29 anos. “Não sou pai, mas é como se fosse. Fácil não é, mas somos muito felizes”, comenta o homem simples, de poucas palavras. A mãe do rapaz, a porteira Maria de Fátima de Sousa, 63, ajuda comprando caixas de remédios. O gasto chega a R$ 180 mensais. “Brigamos pela vida dela. Desde sempre foi uma guerreira.”

Cirurgias
No ano passado, 20% dos transplantes cardíacos realizados pelo ICDF ocorreram em crianças. Dos 30 procedimentos, quatro foram pediátricos. Até a semana passada, a unidade médica tinha igualado o índice ao de 2015 — quatro crianças passaram por esse tipo de cirurgia este ano. Uma delas é Nicholas Araújo Arimateia, 7 anos. O menino, que o leitor do Correio conheceu no início da semana, recupera-se da operação realizada na última terça-feira.

Na capital federal, há duas crianças passando por avaliação para saber se necessitam ou não de transplante de coração. Em cinco anos, o número desse tipo de procedimento em crianças caiu apenas em 2013, quando foram realizados dois. Desde 2012, são quatro cirurgias por ano. Atualmente, o ICDF dispõe de oito leitos de UTI cardiopediátricos conveniados com a Secretaria de Saúde, todos ocupados. Esse tipo de procedimento é feito apenas em quatro cidades: São Paulo, Curitiba, Fortaleza e Brasília.


Depoimento

“A fé é capaz de reparar tudo”

Fiquei quatro meses no hospital acompanhando a Marcela. Batia certo desespero. As outras mães iam embora e eu sempre ficava. Tinha raiva quando as pessoas falavam que sentiam pena de mim. Isso tudo aconteceu quando a minha segunda filha estava com 15 dias de nascida. Nesse período, eu cochilava. Sempre despertava assustada com o barulho dos equipamentos da UTI. Depois do transplante, ela melhorou muito. Ainda assim, passamos alguns sufocos. Durante muito tempo eu ia para as consultas com uma muda de roupa dentro da bolsa, com medo de ter que ficar no hospital. Acredito que todas as mães que passam por essa situação sentem angústia, é comum, mas a fé é capaz de reparar tudo. Eu acredito que a Marcela vai crescer, se desenvolver e ser muito feliz.” - Karen Pereira Pires, mãe de Marcela.


Memória

Caso pioneiro no DF

Marcela Pereira Pires, com apenas 1 ano e 7 meses, entrou na fila do transplante em 12 de novembro de 2009. O coração veio cinco meses depois. Ela recebeu o órgão de uma menina de 3 anos, com tamanho e tipo sanguíneo compatíveis com os dela. Esse foi o primeiro transplante cardíaco infantil realizado no Distrito Federal.
A operação durou cinco horas e foi considerada um sucesso. Na semana de 21 de dezembro de 2009, um batalhão de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas faziam plantão no Instituto de Cardiologia do DF (ICDF) para acompanhar a evolução da menina.
Ao todo, ela ficou 15 dias internada para a recuperação. Seis meses após a cirurgia, o Correio mostrou como estava o desenvolvimento da garota. Em 2 de junho de 2010, a reportagem acompanhou uma consulta de Marcela no Hospital das Forças Armadas (HFA). Karen Pereira Pires, então com 18 anos, enfrentava longos períodos de internação da filha.

 

Fonte: *Via CB-Clipping

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