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RODOVIÁRIA DO PLANO: Vícios e violência são algumas das razões que levam moradores de rua a viver no centro de Brasília

“Meu sonho é voltar a praticar caridade”. O desejo é de alguém que não tem nada de valor a oferecer. Moradia, emprego, dinheiro, vestuário, alimentação nem família por perto. Ainda assim, sua vontade é voltar no tempo e ajudar moradores de rua, nem que seja com um pão francês quentinho no café da manhã, como fazia antes de se juntar a eles. Assim como o padeiro e confeiteiro Manoel de Freitas Ribeiro, quem reside na Rodoviária do Plano Piloto coleciona histórias de vida, no mínimo, emocionantes.

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O problema é que, quase sempre, elas – e seus protagonistas – passam despercebidas pelos milhares de passageiros que transitam pelo terminal. Aos 52 anos, Manoel, cearense de Paraipaba (CE), vive na rua há oito meses. Antes do atual endereço, morou em São Sebastião com uma companheira, que o deixou por causa de um parceiro antigo: o álcool.


Há 18 anos em Brasília, o torcedor do Fluminense assume a doença e, entre um gole e outro de pinga durante a conversa, lamenta a última recaída. “Sou alcoólatra. Sempre fui. Cheguei a ficar dois anos e seis meses longe do vício, mas não resisti”, conta. Ele lembra o motivo que o fez fraquejar. “Saí cansado do trabalho e parei em um bar. Ao chegar em casa, discuti com a minha mulher e fui embora”, relata.


Apesar disso, o padeiro não desistiu de colocar as mãos na massa de novo. “Arruma uma padaria para eu trabalhar?”, pede ele, antes de falar do seu xodó na cozinha: “Sabe aquele pão francês quentinho do café da manhã? Eu sei fazer”.

Padeiro e confeiteiro profissional, Manoel foi para as ruas devido à dependência de álcool.


Com 38 anos de profissão, Manoel conta que seu último emprego foi em uma padaria na W3 Sul. Há 18 anos na capital, ele saiu de Fortaleza em busca de um salário maior, mas foi traído pelo vício. “Tenho vontade de parar, mas é difícil. A cachaça não deixa. A pinga é a minha rotina, ela está comigo todos os dias. Se alguém me arrumar um emprego amanhã, não vou conseguir ir. Primeiro, tenho que tratar meu organismo, tomar suco, água de coco, fazer a barba e cortar o cabelo. Não falta vontade”, desabafa.


Consciente do tratamento, o padeiro sabe que o tempo é seu desafio. “Eu preciso de ajuda. Não posso parar de uma vez. Não é assim que funciona”, declara. Apesar de aceitar a doença, Manoel não se conforma em ir para uma clínica de reabilitação. “Prefiro receber ajuda de uma igreja. Já estive em casa de recuperação e não gostei”.

Emocionado, o morador da Rodoviária do Plano Piloto lista as dificuldades de viver no terminal. “Sinto falta de ser cumprimentado. Às vezes, digo bom dia e sou ignorado. As pessoas têm medo da gente porque não tomamos banho e usamos sempre a mesma roupa. É muita discriminação e isso me entristece. Todo mundo vem e vai para o mesmo lugar. Ninguém tem o direito de diminuir o outro só porque tem dinheiro”, opina.


“Inferno” na madrugada

À noite, o cenário é ainda pior na rodoviária. Manoel, por exemplo, já foi assaltado enquanto dormia. Levaram sua mochila e todas as roupas. “Eu estava bêbado. Não pude fazer nada. Depois da meia-noite, isso daqui vira um inferno. Só tem drogado e bandido. A saída é dormir durante o dia e ficar de olhos bem abertos mais tarde. Ninguém é amigo de ninguém”, conta o padeiro desempregado.

Ainda assim, a alegria de viver está estampada no rosto de Manoel. “Eu sou feliz sim. Tenho fé em Deus e isso me basta”, declara ele, que já morou em várias cidades brasileiras e passou por alguns albergues. Formado em Agronomia em Fortaleza, também já trabalhou como vendedor ambulante de cabides.


Durante a entrevista, entre um gole e outro de pinga, Manoel lembra do que mais gostava de fazer no fim do expediente. “Saía da padaria e levava pão e bolo para os moradores de rua. Sempre que podia, gostava de ajudar. A gente nunca sabe o dia de amanhã, não é? Hoje, eu preciso de um prato de comida. Mesmo depois de vir para a rodoviária, dou minhas marmitas quando não estou com fome. A única coisa que eu não divido é a minha pinga”, ressalta ele, que, depois de um desentendimento no trabalho por causa de uma folga, teve a última recaída.


Manoel tem um filho de 28 anos que mora no Ceará, mas não o conhece. “Queria dizer para ele que sou seu pai, que gosto dele. Eu iria fazer um pão para o meu filho. Tomar um café com leite com ele”, finaliza o morador de rua, emocionado.


Ação do EstadoResultado de imagem para moradores de rua rodoviaria plano piloto brasilia df

Atualmente, há cerca de 2,5 mil moradores de rua no Plano Piloto e cidades-satélites, segundo a Secretaria do Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Sedestmidh). As regiões com maior incidência são Plano Piloto, Taguatinga e Gama. Ainda de acordo com a pasta, o órgão faz o Serviço de Abordagem Social de forma sistemática em todo a Grande Brasília. Quinze equipes ofertam e explicam sobre a rede socioassistencial.


Infância difícil dentro de casa

O jovem Lucas Wesley Mota Braga carrega no corpo marcas de um passado dramático. Natural de São Paulo, ele fugiu de casa depois de apanhar da mãe. Desde então, divide o teto da rodoviária com os colegas de rua. “Ela me queimou e cortou minha perna. Me trancava no quarto com meus cinco irmãos, sem comida, e nos amarrava. Tudo porque a gente não queria pedir dinheiro na rua para ela”, relata.

Lucas conta que a mãe é usuária de drogas. “Ela queria o dinheiro para comprar crack. Além disso, dava maconha, cigarro e solvente para a gente”, lamenta. “Às vezes, começo a chorar. Minha mãe nunca me deu um carinho, um beijo. Não quero voltar. Quero encontrar meu pai no Rio de Janeiro”.

Com o Ensino Fundamental incompleto, ele sonha cursar Direito. “Quero ser advogado ou juiz e poder prender todos os bandidos do mundo”, afirma Lucas, que vende lanches na rodoviária. “Aqui, ninguém olha para a gente. Pelo contrário, me chamam de vagabundo. Queria ser recebido num albergue e largar essa vida”.


Saiba mais

  • O governo não faz a retirada compulsória de moradores de rua. No entanto, a pessoa pode solicitar abrigo e ser encaminhada a uma unidade.
  • Ainda segundo a secretaria responsável, as unidades de acolhimento não têm estrutura física e profissional para acolher pessoas com necessidade de atendimento médico ou em situação de crise emocional, tais demandas devem ser encaminhadas aos serviços de saúde.(*Por:Manuela Rolim)

 

Fonte: *Via JBr/Clipping

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