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CRISE HÍDRICA: Saiba por que os reservatórios de Brasília enchem de maneira diferente

Barragem do Descoberto é cerca de quatro vezes maior em dimensão e tem afluentes com mais vazão do que o manancial de Santa Maria

Quantidade de afluentes, diferença de área de drenagem e oferta de chuvas são fatores que explicam por que o nível dos dois principais reservatórios do Distrito Federal se eleva em ritmos diferentes.

 

"Estamos racionando agora para manter a capacidade de abastecimento daqui a seis meses, quando não chove no DF" - Welber Alves, coordenador de Informação Hidrológica da Adasa

 

Na Barragem do Descoberto, em Brazlândia, em duas semanas de precipitação intensa em fevereiro, o volume passou de 18,85% para 36,95%, conforme último boletim divulgado pela Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento do Distrito Federal (Adasa).

 

No Reservatório de Santa Maria, dentro do Parque Nacional de Brasília, subiu de 40% para 44,74%.

 

A Barragem do Descoberto em 16 de fevereiro, quando o nível de água estava em 36,74%.

A Barragem do Descoberto em 16 de fevereiro, quando o nível de água estava em 36,74%. 

 


 

Uma das diferenças fundamentais das duas bacias é a área de drenagem, ou seja, o espaço que tem para captar a água.

A do Descoberto é de 460 quilômetros quadrados, e a de Santa Maria, de 120 quilômetros quadrados. Assim, chega menos volume a esse reservatório, e o nível do armazenamento demora a aumentar.


A área dos espelhos d’água — o tamanho dos lagos que formam as barragens — também influencia as capacidades de acumulação. Quando cheio, o Reservatório do Descoberto tem área de 12,55 quilômetros quadrados. Já o de Santa Maria chega a 7,65 quilômetros quadrados nas mesmas condições.


Outro ponto sensível às duas bacias é a dimensão dos cursos d’água que as compõem. Ambas têm diversos córregos em sua formação. No entanto, a do Descoberto conta com três tipos diferentes de proporções significativas para abastecê-la — Alto Descoberto, Ribeirão Rodeador e Ribeirão das Pedras. A de Santa Maria tem apenas o Ribeirão do Torto com essa capacidade.

Os demais córregos são menores e de vazões reduzidas. “A bacia de Santa Maria, de forma geral, é menor que a do Alto Descoberto”, explica a gerente de Recursos Hídricos e Segurança de Barragem da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb), Maria do Carmo Magalhães Cezar.

As baixas vazões dos cursos d’água são reflexo da geografia do território, uma vez que a Grande Brasília está em região de Planalto, e aqui nascem rios e córregos que seguem para outras unidades da Federação.

 

Essas características se acentuam no Reservatório de Santa Maria, que recebe menos volume por segundo. Nele, em janeiro deste ano, chegaram em média 500 litros por segundo, e, no do Descoberto, 8 mil litros por segundo, conforme monitoramento feito pela Adasa.


A retirada média de água para abastecimento, por sua vez, foi de 350 litros por segundo no de Santa Maria, na última semana. Já na do Descoberto, o índice foi de 3,8 mil litros por segundo. “Estamos racionando agora para manter a capacidade de abastecimento daqui a seis meses, quando não chove no Distrito Federal”, explica o coordenador de Informação Hidrológica da Adasa, Welber Alves.


A formação dos solos, nas duas regiões, também colabora para a diferença de volume armazenado pelos mananciais, como destaca Maria do Carmo. “O solo do Descoberto tem produtividade de água maior que o de Santa Maria”, conta. Em linhas gerais, significa que a capacidade de infiltração e retenção de um é maior do que no outro.


Estiagem foi mais intensa no Reservatório de Santa Maria

A escassez de chuvas atingiu o Distrito Federal como um todo, mas foi ainda pior na bacia de Santa Maria. Os registros do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) indicam uma diferença de 50 milímetros entre as duas barragens.

 

Os dados mais recentes mostram que, de 13 de janeiro a 13 de fevereiro deste ano, choveu o equivalente a 250 milímetros. No Descoberto, foram 300 milímetros no mesmo período.

Variações do nível dos reservatórios do DF em 2017

O recorte se inicia em 13 de janeiro, porque as primeiras duas semanas do ano foram secas.

 

Nesse período, o Descoberto registrou os valores mais baixos em 13 de janeiro, quando chegou a 18,85%, de acordo com a aferição feita às 7h30 pela Adasa. O nível mais baixo de armazenamento do manancial também ocorreu nesse dia e foi de 18,69%, na medição das 14h30 da agência reguladora.


Em 13 de janeiro, o Santa Maria registrou 41,04% às 7h30. O índice mais baixo medido, porém, foi 39,96%, em 3 de fevereiro, também às 7h30. Nos fins de semana, só é feita a aferição do primeiro horário.


 

O acumulado de chuvas no Distrito Federal, em janeiro, também ficou abaixo do esperado. Os valores de referência do mês para o Inmet são de 247 milímetros.

 

Mas os registros ficaram em 145 milímetros, o que corresponde a cerca de 58% da média. Com esse cenário, medidas como o racionamento de água nas regiões administrativas abastecidas pelo reservatório do Descoberto e a redução da pressão nas atendidas pelo de Santa Maria são fundamentais para evitar o esgotamento dos mananciais no período da estiagem.

 

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