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VAI PIORAR AINDA MAIS: Diante da seca, GDF não descarta aumentar dias de racionamento de água

Considerados estratégicos para recompor o nível dos reservatórios, os meses que antecedem o período de estiagem têm tido precipitações bem abaixo da média histórica

A falta de chuvas no Distrito Federal tem agravado a crise hídrica que castiga a Grande Brasília. Isso porque os meses considerados chuvosos e essenciais para manter os níveis dos reservatórios seguros para o abastecimento da população não têm registrado as médias históricas de precipitações.

 

Nos primeiros 13 dias de março, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), havia chovido apenas 23,3 mm, na capital do país — 87% abaixo da média histórica para o mês, que é de 180,6mm.

O índice é menor, inclusive, que a média de maio — 30,6mm—, mês que marca o início da seca em Brasília.

Diante dessa possibilidade de estiagem antecipada, o Governo do Distrito Federal (GDF) não descarta a possibilidade de aumentar o rodízio no abastecimento.


Os meses de novembro a abril são considerados estratégicos para o abastecimento da capital federal — período em que o nível dos reservatórios é recomposto para enfrentar a longa estiagem. Para se ter uma ideia, segundo a Assessoria de Imprensa da Agência Reguladora de Águas do DF (Adasa), em março do ano passado, o índice das barragens do Descoberto e de Santa Maria/Torto estava em 100% — ontem, elas registravam 43,60% e 47,56%, respectivamente.

 

De acordo com o Inmet, a pouca presença de chuva está ligada ao fenômeno meteorológico vórtice ciclônico, concentrado entre Goiás, DF e parte de Tocantins. Ele faz com que ocorra poucas formações de nuvens em toda a região. O fato se junta a um comportamento que tem se repetido ao longo de três anos, quando ocorreu a redução de chuvas em Brasília. De novembro do ano passado até ontem, apenas em fevereiro a média de precipitações foi ultrapassada (veja quadro).

 

O chefe da Casa Civil, Sérgio Sampaio, explicou que o Executivo local tem monitorado a situação das barragens e estuda a possibilidade de aumento nos dias de rodízio. “A curto prazo, acho que conseguiremos nos manter dentro do nível, com a redução do consumo. Mas, durante o período seco, não podemos assegurar nada”, afirmou. A aposta do governo, segundo Sampaio é em outras ações. “Estamos trabalhando o aumento da captação de água por meios de obras no Córrego Bananal, e a emergencial do Lago Paranoá, mas, anteriormente a isso, não descartamos aumentar o esquema de rodízio.”

 

Com um estúdio de beleza em Taguatinga, o empresário Oliver Garcia, 33 anos, não consegue contabilizar qual seria o tamanho do prejuízo com a implantação de mais um dia de racionamento na cidade-satélite. Atualmente, o estabelecimento chega a ficar mais de 48 horas sem água. “É muito transtorno. Tenho que pedir aos clientes para virem com cabelos lavados ou suspender atendimentos, pelo fato de ser impossível realizar alguns serviços sem água”, detalhou. A caixa-d’água na casa onde funciona o negócio não é suficiente para o abastecimento. “Eu teria que mudar o encanamento do local, e isso é inviável. Mudar também de local é complicado, devido ao contrato de aluguel. Enquanto isso, estou acumulando prejuízos. Infelizmente, tenho que fechar em alguns dias de racionamento. Aumentar um dia complica ainda mais a situação”, reclama.

 

Possibilidades

Segundo o presidente da Companhia de Saneamento Ambiental (Caesb), Maurício Luduvice, os estudos para a implantação de um segundo dia de rodízio envolvem o monitoramento constante das condições dos reservatórios. “As chuvas estão aquém do esperado, por isso, não retiramos a possibilidade de um novo esquema de rodízio. Contamos com a consciência dos consumidores para evitar essa nova situação. O que precisamos é garantir recurso hídrico para o período de seca. Estamos estudando todas as ações minuciosamente”, explicou.

 

O professor de hidrologia aplicada do curso de engenharia civil do Centro Universitário Iesb Dennyson Lima do Vale observa um cenário gravíssimo de problema ambiental para o DF. Segundo ele, o período chuvoso é considerado como chave para manter os reservatórios cheios. “Tradicionalmente, chove-se até abril. Depois disso, a região entra numa fase de seca, com precipitações novamente apenas em novembro. A ausência de chuvas atualmente é preocupante. Em fevereiro, houve algumas incidências, mas não caiu na área desejada, que são nas bacias que abastecem esses reservatórios”, detalhou. Segundo o especialista, a falta de chuvas também atrapalha a formação de lençóis freáticos. “Se não chove, não há água para infiltrar no solo e abastecer os rios no período de seca. A situação é bem preocupante.”

 

Hoje, o Ministério Público do DF promove uma audiência pública para discutir a crise hídrica no DF. O evento, que ocorre das 9h às 18h45, no auditório da sede do MPDF, contará com exibição de vídeos, painéis, avaliações de especialistas e debates. No painel Boas Práticas e Mobilização Social, que contará com a participação de promotores de Justiça do Meio Ambiente (Prodema) e do Direitos do Consumidor (Prodecon), serão apresentadas ações que a comunidade realiza em prol da preservação da água. No período da tarde, pesquisadores e integrantes do governo tratarão de causas e desafios da crise hídrica. A compilação dos trabalhos fornecerá elementos para possíveis encaminhamentos de ações.

 

Justiça prevê multa

A Justiça estabeleceu um prazo de 60 dias para que a Adasa defina uma data para o fim do racionamento de água e desenvolva um Plano de Gestão Hídrica e Metas de Eficiência Hídrica. Autora da ação, a OAB-DF solicitou uma série de metas à agência e alegou que a Adasa tem arrecadado “receita tarifária extraordinária ineficaz e sem contrapartidas” durante a crise hídrica. O TJDF acatou a medida liminar, estabelecendo multa diária de R$ 10 mil, caso a decisão não seja cumprida.

 

Fonte: *Via CB/Clipping

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