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ESTATÍSTICA PREOCUPANTE: Em duas semanas, 15 atropelamentos com cinco mortes são registrados na Grande Brasília

Combinações de álcool, direção, imprudência e ilegalidade tiraram a vida de cinco pessoas, entre pedestres e ciclistas, em 15 atropelamentos registrados no Distrito Federal apenas nas últimas duas semanas.

 

Em média, é como se a cada três casos pelo menos uma pessoa morresse nas ruas da capital. Para especialistas, a certeza de impunidade interfere nas incidências de tragédias e o aumento da violência no trânsito acende um alerta.


“Estamos baixando a guarda e perdendo o controle. Os métodos de fiscalização são ineficazes. É preciso adotar um modelo preventivo porque, quando acontece o acidente, o problema já aconteceu”, acredita David Duarte Lima, presidente do Instituto de Segurança no Trânsito (IST) e professor da Universidade de Brasília.


O especialista diz que o governo não tem cumprido o papel de se antecipar aos fatos. “Nós não aprendemos com os erros. A perícia é ruim e, como não entendemos como aconteceu o acidente, não sabemos onde está o erro. Isso é um dos problemas”, opina.


Fatalidade, imprudência, falta de fiscalização. Para Luiz Miúra, especialista em trânsito, os números são uma combinação desses fatores. Mais do que isso, um retrato da impunidade. “A legislação não é eficiente. Parece que a lei não é feita para punir criminosos. Sempre tem uma brecha, uma saída, uma facilidade”, opina. Miúra defende que campanhas técnicas e inteligentes devem ser feitas com o objetivo de responsabilizar o motorista, “que tem a arma na mão”.


“Não basta o Estado fazer a parte dele. As pessoas têm que ter mais consciência”, opina Renata Florentino, coordenadora geral da ONG Rodas da Paz. Quase metade dos atropelamentos registrados nos últimos dias envolveu ciclistas e dois morreram. “Dirigir após ingerir álcool ou sem CNH oferece risco às outras pessoas. Tudo envolve poder de decisão. Basta um motorista imprudente para tirar a vida de alguém”, lembra.


Os dados mais recentes sobre acidentes com morte do Detran são de fevereiro. Nos dois primeiros meses do ano, 40 pessoas perderam a vida no trânsito. A segunda maior causa é o atropelamento de pedestres, atrás apenas de colisões. Foram dez pedestres e quatro ciclistas mortos. Em todo o ano passado, foram registrados 366 óbitos: 132 pedestres e 19 ciclistas.


NO MAIO AMARELO, O DETRAN PROMETE REALIZAR 1,2 MIL OPERAÇÕES COM FOCO NO COMBATE À EMBRIAGUEZ AO VOLANTE, POR EXEMPLO.

O Maio Amarelo trará intensificação nas fiscalizações. Além das blitze usuais, o Detran promete realizar 1,2 mil operações simultâneas com foco no combate à embriaguez ao volante, à falta do cinto de segurança, ao uso do celular, desrespeito ao ciclista e ao pedestre e à condução de veículos por pessoas não habilitadas.


Mortes recentes

Entre 22 de abril e 3 de maio, o Corpo de Bombeiros atendeu a pelo menos 15 chamados de atropelamentos. Somente ontem foram quatro. No mais grave, o ciclista Floriano Sampaio e Silva, 51, morreu após ser atingido por um veículo em frente ao condomínio onde morava, na Quadra 17 do Park Way. O condutor, José Batista de Paula, não tinha habilitação e está detido. Ele responderá por homicídio culposo, quando não há intenção de matar, já que é a única tipificação prevista em crimes de trânsito.


Acidentes registrados por toda a capital federal

Uma mulher de 27 anos morreu após ser atropelada por um ônibus na noite do último domingo, na plataforma inferior da Rodoviária do Plano Piloto. De acordo com informações da Polícia Civil, Kelry Cristina Laurindo de Oliveira teve parada cardiorrespiratória, chegou a ser transportada ao Hospital de Base, mas não resistiu.


Testemunhas contaram que ela atravessava a rua quando o motorista do ônibus fez uma curva e a atingiu. Em depoimento, o condutor disse que, após o semáforo abrir, fez a curva acentuada à direita e sentiu um solavanco na roda traseira do veículo, mas não observou que era uma pessoa. O bafômetro deu negativo. A 5ª DP (Área Central) investiga o caso.


No sábado, o carro foi usado como arma. Daniel Barreto Batista, 28, e Douglas Araújo Santos, 21, morreram atropelados no Jardins Mangueiral, em São Sebastião, após uma confusão em uma festa. O atropelador, inabilitado de 18 anos, teria saído em alta velocidade com a intenção de atingir as vítimas, que estavam sentadas no canteiro da via após serem agredidas. O acusado também responde, preso, por homicídio culposo. No mesmo dia, horas antes, um ciclista de 59 anos foi hospitalizado após ser atingido no Lago Sul. O motorista fugiu sem prestar socorro.


Nove dias antes, o aposentado Edson Antonelli, 61 anos, morreu na Quadra 7 do Lago Norte. Ele foi atingido por um carro guiado por Mônica Karina Rocha Cajado Neves, 20 anos, que estava alcoolizada depois de passar a noite em uma festa. O teste do bafômetro detectou que ela dirigia com 0,865 miligrama de álcool por litro de ar expelido — acima de 0,3 miligrama já considerado crime. Ela responde, em liberdade, por homicídio culposo e embriaguez ao volante.


Circunstância apurada

A Polícia Civil apura um atropelamento que aconteceu na manhã de ontem na 402 Norte. Rebeca Rissa Loiola, 24 anos, foi atingida por um Chevrolet Cruze. Às autoridades, a mulher informou que teria sido acertada propositalmente pelo namorado após uma discussão. O motorista fugiu.

Na terça-feira, a vítima foi uma menina de 12 anos, no Paranoá, que sofreu ferimentos e foi hospitalizada no HBDF. Na tesourinha da 112 Sul, um garoto de 16 anos foi atingido e levado à mesma unidade. Em Ceilândia Norte, uma vítima estável foi encaminhada ao hospital.


Na segunda-feira, uma menina de oito anos que andava de bicicleta entre as Quadras 12/13 do Park Way foi ferida.

Na semana passada, Bruna Brito Lemos, 32, foi atingida em cima da faixa de pedestres no SIA. Célio Fernando Silva, 33, tentava atravessar a via paralela ao BRT quando atropelado no Park Way. Maria Lídia Barbosa dos Santos, 60, também foi vítima, na Asa Norte, com fratura no braço esquerdo.


PONTO DE VISTA

Os suspeitos de matarem mãe e filho em um racha no domingo estavam alcoolizados, fugiram do local, não prestaram socorro e estão em liberdade. Enquanto isso, o motorista inabilitado, não alcoolizado e que prestou socorro ao ciclista que morreu no Park Way na terça está preso. De acordo com o advogado criminalista Ivan Morais Ribeiro, a principal diferença entre os casos é o flagrante.

“A estipulação de fiança depende do tempo máximo de prisão da tipificação criminal. Se for até quatro anos, o delegado pode arbitrar a fiança. Se não fizer, os suspeitos vão para audiência de custódia e o juiz decide se converte a prisão provisória em preventiva, se concede liberdade provisória ou se relaxa o regime”, explica Ribeiro.


José Batista de Paula, motorista do crime no Park Way, foi detido na cena do crime em flagrante. Se fosse responder apenas por homicídio culposo, poderia estar em liberdade por ter pena máxima de quatro anos em caso de condenação. Como dirigia sem ter CNH, a pena é aumentada em um terço. “Nesse caso, o delegado não pode arbitrar fiança. Acredito, pelas circunstâncias, que ele seja liberado na audiência de custódia”, diz o advogado.

Noé e Evaldo, por outro lado, fugiram do flagrante na L4. Eles depuseram na delegacia no dia seguinte após conversarem com advogado – situação que, segundo o especialista, deve acontecer sempre que possível. “Apesar de estarem soltos, a atitude pode dificultar mais que beneficiar, porque não prestar socorro e negar teste do bafômetro, por exemplo, dão uma carga valorativa negativa ao processo”, opina.


Quem mata no trânsito tem liberdade garantida

  • Em 26 de abril, o Jornal de Brasília mostrou que a chance de alguém que matou outra pessoa no trânsito permanecer preso é praticamente nula. Isso porque raríssimas situações são caracterizadas como homicídio doloso – quando há a intenção de matar -, ainda que o consumo de álcool seja comprovado.
  • Qualquer ocorrência envolvendo veículos é regida pelo CTB, inclusive os homicídios e, inicialmente, todo o crime é de natureza culposa – quando não há a intenção de matar.

  • Saiba mais

    • Duas das mortes registradas foram causadas por motoristas sem habilitação. Segundo o Detran 35 condutores inabilitados são flagrados diariamente no Distrito Federal. Em 2016, 26% dos 513 condutores que se envolveram em acidentes com mortes não eram habilitados.
    • O Código de Trânsito Brasileiro determina que, para conduzir veículo, o motorista tem de ser aprovado no processo de habilitação. O condutor inabilitado está sujeito a multa de R$ 880,41 e à retenção do veículo. Também pode configurar crime de trânsito, com detenção de seis meses a um ano ou multa.(*Por:Jessica Antunes)

 

Fonte: *Via JBr/Clipping

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