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CRISE HÍDRICA: Comércio perde até 10 por cento do movimento de clientes nos dias em que falta água

Porcentagem pode duplicar caso a medida seja ampliada. Pequenos empreendedores sãos os mais prejudicados nos diferentes setores

Após meses de crise hídrica, ainda não é possível mensurar com exatidão os prejuízos gerados na economia local em razão do racionamento.
Sindicatos e instituições privadas contabilizam aos poucos os efeitos nos negócios.
Seja em bares, seja em restaurantes, construções, comércio ou agricultura, a falta de água causou alterações na rotina dos empresários. A possibilidade de ampliar o rodízio para duas vezes na semana assusta ainda mais.Resultado de imagem para louça suja em restaurante

A dificuldade não é apenas gerenciar o armazenamento da quantidade de água necessária à manutenção das atividades.
A crise hídrica pode abalar a confiança do consumidor no serviço prestado, conforme destaca o professor de economia da Universidade de Brasília (UnB) Jorge Madeira Nogueira. “O cliente pode passar a ter dúvidas dos procedimentos de higiene e manuseamento, principalmente nos estabelecimentos comerciais ligados à alimentação”, detalha.
Segundo o especialista, a economia local só não foi tão afetada com o racionamento devido à forte presença do funcionalismo. “Esse é um setor forte, que não é muito afetado com a crise hídrica. O segmento industrial ainda é pequeno na capital do país, formado por indústrias gráficas e construção civil. O último estava desaquecido, como a economia nacional”, observa.

A estimativa da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio-DF) é de que um dia de suspensão do abastecimento acarrete 10% de queda ao setor. A ampliação do racionamento pode duplicar esse número. “Se caminhar para dois dias será uma catástrofe para os pequenos empresários, que são os que mais sofrem e não têm condições de armazenar grandes quantidades de água. A crise hídrica significou prejuízos e a ampliação do rodízio pode causar temor ao empresariado local. Existem comerciantes que preferem não abrir em dia que não tem água”, afirma o presidente da Fecomércio, Adelmir Santana. Ele relata que, até agora, os primeiros meses da medida foram os mais sentidos pelos empresários. “Em Brasília, fomos acostumados com o discurso de que a água estava garantida. Com essa certeza, ninguém se planejou e, na hora do racionamento, os empresários sentiram.”

Consequências

A preocupação dos empresários não é apenas com a demora do restabelecimento do serviço.
Em algumas localidades, a água retorna turva e com aspecto barroso.
Proprietários de um restaurante na 208 Sul, Ritamar de Mendonça, 65 anos, e Gilvan Araújo, 74, passaram a ter um custo maior no estabelecimento com a compra de galões de água.
A caixa d’água do comércio consegue aguentar as 24 horas sem a distribuição da Companhia de Saneamento Ambiental (Caesb), mas o retorno do abastecimento ainda é demorado. “Não é possível voltar a usar a água da torneira. É muito barro. Com isso, temos esse gasto adicional. Precisamos do recursos para preparar as refeições, sucos e limpeza dos talheres”, comenta Ritamar. O problema também dificulta a previsão de investimentos. “Ficamos inseguros em ampliar os negócios diante da incerteza se teremos água futuramente”, afirma Gilvan.

Na Quadra 101 do Sudoeste, uma academia perdeu alunos devido à falta de água. “Muitos malhavam antes de ir para o trabalho e acabavam tomando banho por aqui. Como em dia de racionamento não há nenhuma água no chuveiro, alguns optaram por sair”, explica o empresário Rodrigo Pádua, 39. Isso ocorre porque, no prédio, há caixa d’água apenas para os apartamentos. Os comércios não são contemplados — situação comum nos blocos comerciais de Brasília.
Com isso, os donos do estabelecimento também tiveram que investir em um novo bebedouro. “Os alunos foram orientados a trazer água de casa, mas, diante dessa situação, resolvemos comprar um aparelho que comporte galões. Neste momento não temos condições de investir num equipamento de armazenamento. Os custos ultrapassariam os R$10 mil com instalação e encanamento”, detalha.

Na área da construção, o empresário Fábio Caribé teve problemas na produção de concretos no primeiro mês de racionamento. Para não ficar no prejuízo, precisou correr contra o tempo e investir em um sistema maior de armazenamento. “Nós tivemos que alterar os procedimentos e fazer um investimento na rede auxiliar de água com o uso de poços artesianos”, lembra.

Pesquisa desenvolvida da Federação das Indústrias do Distrito Federal (Fibra) revelou o impacto do racionamento de água no setor industrial local. Nas 114 empresas pesquisadas, 61,4% dos empresários informaram usar o recurso hídrico no processo produtivo; 44,2% se dizem prejudicados ou tem que parar a produção; e 55% afirmaram que a rotina não foi alterada. “Notamos que não houve um impacto tão grande no primeiro momento. O receio é com a ampliação do rodízio para dois dias, que pode afetar muito a produção. Houve também um prejuízo menor para as empresas de grande porte, pelo fato de já possuírem anteriormente uma reserva mais aprimorada. Os pequenos foram os mais prejudicados”, considera o presidente da Fibra, Jamal Bittar.

Critérios para evitar rodízio maior

A Agência Regularizadora de Águas (Adasa) estabeleceu, em parceria com a Caesb, parâmetros para monitorar a situação dos reservatórios. A resolução nº 9, de 15 de maio de 2017, trata da Curva de Acompanhamento do Reservatório do Descoberto, considerando algumas condições específicas. Caso essas condições sejam mantidas, será possível evitar uma restrição maior na captação pela Caesb, ou seja, o segundo dia de racionamento.
A avaliação do cumprimento das metas mensais será feita com base nos seguintes critérios: entrada de água no Reservatório; consumo da água pela população e pelos agricultores; e a situação das obras, particularmente do Bananal e do Lago Paranoá. O monitoramento será feito em reuniões semanais para fazer a avaliação dos dados e as revisões mensais.

Onde vai faltar água

Sistema Santa Maria
Sudoeste, Octogonal, Cruzeiro Novo, Setor de Indústrias Gráficas, Praça Municipal, Setor de Garagens Oficiais, Setor de Administração Municipal, Setor de Divulgação Cultural, Esplanada da Torre, Setor de Recreação Pública Norte, condomínios do Jardim Botânico (Jardim Botânico III, Jardim Botânico VI, Quintas do Sol, Quintas Bela Vista, Quintas Interlagos, Jardins do Lago Quadra 09, Morada de Deus, Quatro Estações, Máxximo Gardem, Belvedere Green, Chácaras Itaipú (exceto 80 a 84), Quintas Itaipú e Jardim da Serra).

Sistema Descoberto
Taguatinga Sul, Setor Primavera, Arniqueiras, Areal, Riacho Fundo I, Guará I e II, Pólo de Modas, CABS (exceto chácara 1 e 2), Lucio Costa, SQB e CAAC.(*Por:Thiago Soares)

 

Fonte: *Via CB/Clipping

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