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FALSO TESTEMUNHO: Delegado é réu por acobertar agente que forjou flagrante sobre joias roubadas

Ele é acusado de falso testemunho. MP aponta que delegado mentiu e protegeu policial que ficou com joias para conseguir recompensa; defesa nega.

O delegado Wisllei Salomão, da Polícia Civil, é réu na Justiça do Distrito Federal por falso testemunho. Segundo o Ministério Público, ele acobertou três agentes que forjaram um flagrante e incriminaram um inocente, que acabou preso acusado de revender produtos roubados de uma joalheria.


Resultado de imagem para Delegado-chefe da DPCA, Wisllei SalomãoNa visão dos promotores do Núcleo de Investigação e Controle Externo da Atividade Policial, o delegado mentiu à Justiça quando questionado sobre a ação dos policiais subordinados a ele, negando que o flagrante tivesse sido forjado.

Já a defesa de Salomão alega que ele agiu de ofício e apenas relatou no tribunal aquilo que tinha sido informado pelos três agentes.

 

Joalheira roubada

 

De acordo com o MP, o agente da 10ª DP (Lago Sul) Éder Neiva agiu para conseguir uma recompensa prometida por uma joalheria do bairro a quem conseguisse encontrar peças que tinham sido roubadas. O crime ocorreu em dezembro de 2011.

Ao receber informações de que um homem com mandado de prisão em aberto tinha detalhes sobre o paradeiro das joias, Neiva teria decidido intimá-lo por telefone, no início de janeiro. Ainda segundo o MP, Fábio Figueiredo foi à delegacia, junto com um amigo, achando que se tratava de um caso sobre “clonagem de milhas”.


Os promotores afirmam que na delegacia, eles foram ameaçados pelo policial, que ordenou que localizassem as joias. Caso contrário, Figueiredo seria preso pelo mandado em aberto e o amigo, por outros crimes.

Trecho da denúncia sobre flagrante forjado (Foto: Reprodução)
Trecho da denúncia sobre flagrante forjado

 

O Ministério Público afirma que eles acabaram fazendo um acordo: Figueiredo pegaria uma parte das joias com o conhecido para que o agente pudesse confirmar se fazia parte do lote roubado.

O material seria devolvido, para que o agente Éder Neiva pudesse prender o ladrão.


No entanto, Neiva teria decidido guardar as joias e continuou ameaçando Fábio Figueiredo para que conseguisse entregar o restante do material roubado.

Segundo a denúncia, o policial ligava insistentemente “para que providenciassem um encontro com os autores do roubo à joalheria ou com os receptadores”. Cópia da conta telefônica comprovaria a versão.

Lista de enumera quantidade de ligações entre agente e homem que acabou preso após flagrante forjado (Foto: Reprodução)
Lista de enumera quantidade de ligações entre agente e homem que acabou preso após flagrante forjado (Foto: Reprodução)
Lista de enumera quantidade de ligações entre agente e homem que acabou preso após flagrante forjado

 

Ação

 

O MP relata que, em 27 de janeiro de 2012, “cansado de esperar”, o agente Éder Neiva resolveu agir. Após três ligações para tentar localizar Fábio Figueiredo, o policial acabou indo até um lava-jato em Taguatinga e forçado Figueiredo a ir à delegacia, onde foi preso por ter “quebrado o acordo” entre eles.


“[O agente] resolveu forjar um flagrante de receptação com as mesmas joias que Fábio Figueiredo já havia apresentado no dia 10 de janeiro e que por isso já estavam em poder dele”, afirmam os promotores.


Fábio Figueiredo foi preso preventivamente pelo crime que, segundo o MP, não cometeu. Na ocasião, o flagrante foi homologado pelo delegado-adjunto, Wisllei Salomão. A ocorrência dizia que as joias estavam dentro do carro de Figueiredo.

 

 

Perjúrio

 

À Justiça, o agente Éder Neiva jurou que Figueiredo tinha recebido as joias para vendê-las em Taguatinga e que elas estavam no porta-luvas do carro dele. Dois outros agentes foram testemunhas do caso, e corroboraram a versão do policial.

De acordo com o MP, as ameaças continuaram para que nem Fábio Figueiredo nem o amigo dele revelassem a fraude.


Ao longo do processo, a Justiça verificou que os depoimentos não “batiam”. Figueiredo acabou inocentado.

O MP então abriu investigação contra os três agentes, que acabaram condenados por falso testemunho – com pena prevista de dois a quatro anos de prisão, e multa. Não cabe mais recurso ao processo.

Trecho da denúncia contra o delegado do Wisllei Salomão (Foto: Reprodução)
Trecho da denúncia contra o delegado do Wisllei Salomão

 

E o delegado?

 

Questionado sobre o trabalho dos subordinados, o delegado Wisllei Salomão confirmou à Justiça que as joias foram encontradas no carro de Figueiredo. Também negou que o agente tivesse ficado em posse das joias em um determinado momento.


Para o MP, isso também configura falso testemunho. “[O delegado] foi de encontro à verdade porque ficou demonstrado que o flagrante inexistiu, o que não custa repetir, redundou na condenação dos três pelo crime de falso testemunho”, afirmam os promotores.

Fachada do Tribunal de Justiça do Distrito Federal (Foto: Raquel Morais/G1)Fachada do Tribunal de Justiça do Distrito Federal

Ao G1, o advogado do delegado, Ticiano Figueiredo, afirmou que ele não mentiu. “O delegado explicou o que lhe foi dito. Narrou os fatos que os agentes tinham apresentado. A gente confia no Poder Judiciário. Nos mais de 20 anos como delegado, jamais teve qualquer situação como essa e ele só recebeu elogios por onde passou.” Atualmente, ele está como chefe da Coordenação de Repressão aos Crimes contra o Consumidor e Fraudes (CoRF).

Até a publicação desta reportagem, a 2ª Vara Criminal ainda não tinha dado nenhuma decisão final sobre o caso. A Polícia Civil não informou se abriu investigação interna contra o delegado ou se tinha afastado os agentes condenados por forjar o flagrante. O G1 não conseguiu localizar a defesa destes policiais.

 

Fonte: *Por:Gabriel Luiz/G1/Clipping

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