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ATÉ AO LADO DO JABURU: Número de lixões cresce em endereços nobres da capital federal

Imagens feitas por drone mostram Parque Burle Marx tomado por entulhos. No detalhe, catadores se estabelecem no local

A 30 metros da cerca que demarca o terreno do Palácio do Jaburu — residência oficial do presidente Michel Temer — cresce um lixão clandestino, em área de segurança nacional.

 

Catadores de recicláveis despejam, em uma zona de difícil acesso no meio do cerrado, centenas de sacos de lixo, e separam o que vender em diversas montanhas de entulho e rejeitos.

 

Há kombis e caminhonetes estacionadas no local, além de tendas e barracas repletas de moradores. Algumas carroças de cavalo chegam e saem do perímetro com certa frequência. A invasão está a 1,8km da casa onde vive o presidente e a 1,7km do Congresso Nacional.

 Lixões em endereços nobres da capital

A cena se repete em um dos endereços residenciais mais nobres da capital federal, o Setor Noroeste — bairro com o metro quadrado mais caro da cidade, que pode chegar a R$ 9.677, segundo a pesquisa Dados do Mercado Imobiliário, da empresa VivaReal, feita no início do ano.

 

A invasão está no Parque Ecológico Burle Marx, criado com a promessa de ser moderno e, como o nome sugere, sustentável. O espaço, porém, está poluído e abandonado.

 

A reportagem do Correio flagrou caminhões despejando lixo na área verde. São pelo menos 10 pontos em um raio de 30 metros. Tudo ocorre à luz do dia e ao lado das autoridades — o local está a 2,5km do Palácio do Buriti, sede do governo local. Imagens capturadas com um drone pelo repórter fotográfico do Correio Breno Fortes mostram amontoados de madeira, móveis quebrados, plástico, latinhas e galões com resíduos diversos.

 

De acordo com o Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal (SLU), é realizada limpeza com remoção mecanizada no Burle Marx a cada 15 dias. Ainda assim, o local, no Noroeste, e a área verde em frente ao Palácio do Jaburu estão se tornando espécies de lixão, que atraem mais catadores a cada dia para viverem ali. Com o tempo, sem um devido controle das autoridades, esses espaços tendem a crescer desordenadamente.

 

Custo aos cofres públicos 

Nos seis primeiros meses do ano, o SLU gastou R$ 8.834.345,48 com a coleta de 308.856 toneladas de resíduos diversos — grande parte deles descartado irregularmente, em áreas de cerrado e terrenos baldios.

 

O Distrito Federal tem pelo menos mil espaços semelhantes de descarte irregular de lixo composto por rejeitos domiciliares, móveis, eletrodomésticos, pneus e, principalmente, restos de obras. Alguns, inclusive, a poucos quilômetros de pontos de coleta legais.

 

Os amontoados são, em geral, alimentados por pequenas empresas de construção e moradores das regiões administrativas. E estão longe de serem somente um problema financeiro e administrativo. Poluem o solo e a natureza e atraem insetos e animais.

 

A diretora de Limpeza Urbana do SLU, Márcia Nayane Rocha Santana, ressalta que o descarte irregular de lixo é um problema que reflete na saúde pública. “Resíduos descartados de forma equivocada geram acúmulo de água e, consequentemente, focos de doenças, como dengue, chicungunha, zika e outras epidemias”, destaca. “Estamos desenvolvendo, em parceria com a Agefis, um sistema de monitoramento de pontos de descarte irregular. A Agefis também tem tomado outras medidas, como a instalação de equipamentos de papa-entulho em vários pontos do DF”, acrescenta.

 

De acordo com a diretora, costuma haver rotatividade dos pontos de descarte irregular de lixo. “Geralmente, uma pessoa joga lixo em um espaço público e outras começam a jogar também, quando veem o acúmulo de material descartado no local. Depois que limpamos, o lugar de descarte irregular pode mudar para outra área. Os pontos não são constantes”, explica. Márcia também enfatiza a importância de conscientizar os moradores do DF. “O cidadão nunca está satisfeito com a limpeza pública, mas não faz a parte dele”, critica.

 

Memória

Um novo aterro

Após quase 60 anos de funcionamento, o Lixão da Estrutural tem data para acabar: será fechado em outubro. O maior lixão a céu aberto da América Latina tinha ordem para ser encerrado em 2011. Em 2014, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) acatou o pedido do Ministério Público do DF de multar em R$ 1 milhão o Serviço de Limpeza Urbano (SLU) por não ter fechado o lugar naquela época.

 

Em outro processo, o SLU também foi condenado a pagar multa de mais de R$ 9 milhões. No entanto, o GDF informou que o adiamento ocorreu devido aos atrasos nas obras do Aterro Sanitário de Samambaia — que substituirá o Lixão da Estrutural a longo prazo — e, por causa disso, não havia outra forma de processar o lixo recolhido.

 

Para realocar os catadores de recicláveis que tiram sustento da Estrutural, serão construídos sete galpões. A previsão é que todos fiquem prontos em pouco mais de um ano. Enquanto issto, outros seis serão alugados para dar continuidade aos trabalhos. Depois da transferência de todos os funcionários, o lixão receberá apenas resíduos da construção civil, que não poluem o meio ambiente nem geram condições insalubres de trabalho.

 

Inaugurado em janeiro deste ano, o Aterro de Samambaia foi projetado para comportar 8,13 milhões de toneladas de rejeitos — materiais não reutilizáveis — e ter vida útil de aproximadamente 13 anos. Hoje, o Lixão da Estrutural acumula 40 milhões de toneladas de detritos.

 

Fonte: *Via CB/Clipping

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