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BRAÇOS CRUZADOS: Em greve por salário, vigilantes ficam no meio de jogo de empurra

Nem o GDF, nem empresas assumem responsabilidade por salário atrasado

Aproximadamente 3,5 mil vigilantes terceirizados que trabalham em hospitais, centros de saúde e escolas públicas do Distrito Federal convivem com o atraso de salários.

As paralisações, que se tornaram constantes, começaram novamente ontem, prejudicando serviços básicos da capital federal.


A Secretaria de Saúde admite atrasos de junho e julho, um montante de R$ 25 milhões, e diz esperar recursos. Na Educação, apesar de a pasta negar atrasos, terceirizados da limpeza e merendeiros também podem ampliar o movimento.

“O GDF insiste em dificultar o trabalho dos terceirizados, mas a responsabilidade do atraso de pagamento é das empresas, independentemente se ela recebe ou não. Desde setembro do ano passado a categoria sofre com problemas no recebimento de salário e de benefícios”, afirma Gilmar Rodrigues, diretor do Sindicato dos Empregados em Empresas de Segurança e Vigilância do DF (Sindesv). “Não restou outra alternativa a não ser parar as atividades até que paguem. Continuaremos na luta para garantir que os direitos sejam respeitados”, emenda.


Três empresas prestam o serviço para a Secretaria de Saúde, que confirma: há dois meses não repassa o valor do contrato. Somada, a dívida chega a R$ 25 milhões, referentes ao pagamento de 2,5 mil vigilantes. A pasta diz aguardar recursos e prevê regularização na próxima semana. O salário-base de vigilantes é de R$ 2.454 e o tíquete alimentação é de R$ 32 por dia.

Pacientes prejudicados
O Jornal de Brasília percorreu unidades de saúde da capital, onde, segundo o sindicato dos vigilantes, o ato foi aderido por 80% dos trabalhadores. No Hospital Regional da Asa Norte, a ausência dos profissionais prejudicou o atendimento no pronto-socorro. Ali, a porta de acesso à emergência foi fechada por funcionários, que informavam aos pacientes que a insegurança limitou o atendimento: apenas urgências e emergências eram recebidas.


Vítima de um acidente leve de trânsito, a copeira hospitalar Rayane Batista, de 22 anos, ficou sem atendimento. Com dores no pescoço, inchado pelo impacto, ela ouviu que sequer adiantaria fazer ficha. “É complicado. Quem precisa do serviço público não tem. A gente paga por esse serviço”, reclama o marido dela, Tharley dos Santos, montador de imóveis de 25 anos.

A Secretaria de Saúde nega interrupção no atendimento: “As portas estão fechadas por medida de segurança. Funcionários estão na entrada do pronto-socorro recebendo os pacientes, que são encaminhados à classificação de risco”. No Hospital de Base, apesar da mobilização de grevistas, os serviços não foram afetados – apenas a segurança, já que o entra e sai não era controlado. Ali, a pasta diz que alguns servidores foram deslocados para áreas críticas e a direção solicitou apoio a Polícia Militar para o ambulatório e pronto-socorro.

Em Taguatinga, as visitas foram suspensas no hospital regional. No Guará, a unidade de saúde também foi afetada: um dos portões ficou trancado e, na porta, uma placa anunciava que a greve dos vigilantes alterou inclusive o acesso à unidade. “Estamos sem receber em dia desde setembro do ano passado. A empresa diz que o governo não paga. O governo diz que a culpa é das empresas. Vira uma guerra e a gente é que sofre”, lamenta uma vigilante de 40 anos, que, em quase cinco anos de serviço, diz que a situação piorou no último ano. “Antes, as empresas conseguiam manter, mesmo sem repasse”, lembra a mulher, que pediu para não ser identificada.

Saiba mais
Terceirizados do GDF fizeram praticamente uma greve por mês para reivindicar o pagamento de salários e benefícios atrasados neste ano. Em fevereiro, o Tribunal de Contas do DF suspendeu uma licitação do GDF para a contratação de vigilantes e acusou o governo de estar inadimplente com as empresas que prestam o serviço, principalmente a Secretaria de Saúde.

O Sindiserviços diz ter realizado denúncias no Ministério Público do Trabalho e na Superintendência Regional do Trabalho e Emprego, e participado de audiências públicas com os patrões e representantes das secretarias de governo, em busca de uma solução que normalize a situação.

Foto: Breno Esaki

Escolas públicas em alerta
Na Educação, a estimativa é que 70% dos vigilantes tenham cruzado os braços e a situação pode ficar pior. Cerca de cinco mil empregados da limpeza e conservação de escolas públicas podem paralisar as atividades a partir de hoje até que as empresas paguem o salário do mês, o vale transporte e o tíquete alimentação, que deveriam ter sido acertados na segunda-feira.


O movimento pode ser intensificado por merendeiros, que também dizem ter atrasos. O Sindicato dos Empregados em Empresas de Asseio, Conservação, Trabalho Temporário, Prestação e Serviços Terceirizáveis no (Sindiserviços), que representa as categorias, classifica a situação como “trabalho escravo”.

Com o ato, eles buscam uma solução definitiva ao problema “que tem arruinado a vida de pais e mães de família”, segundo a entidade, que cobra na Justiça reparo por prejuízos em uma ação coletiva. A Secretaria de Educação, porém, nega problemas no repasse às empresas. “O pagamento está sendo feito regularmente conforme edital e contrato. Se houver paralisação, a pasta adotará as medidas cabíveis para que ocorra o cumprimento do contrato”, avisou.

O governo lembra que há um prazo de 90 dias para quitar os pagamentos. Na Educação, atuam 1.572 vigilantes, 1.995 merendeiras e 4.397 funcionários da limpeza. O repasse mensal é de R$ 38 milhões e tudo estaria normalizado.

 

Fonte: *Por:Jessica Antunes/JBr/Cllippiing

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