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CRISE HÍDRICA: A mais complexa obra de abastecimento de Brasília e do Entorno volta a ter prazo de entrega

Nova previsão é para que fique pronta em um ano e meio...

A mais complexa obra de abastecimento do Distrito Federal e do Entorno volta a ter prazo de entrega.

No entanto, os constantes atrasos e aditivos atrapalharam a solução do problema de abastecimento e causaram prejuízos de R$ 9 milhões.


Ao visitar o local, o Correio encontrou operários que faziam a limpeza das estruturas responsáveis por abrigar as bombas de contenção: à espera do maquinário para a retomada da obra

 

Com o prolongamento da estiagem no Distrito Federal e os reservatórios em estado crítico, as obras para novas captações de água tornaram-se essenciais para manter a segurança hídrica. Embora os canteiros estejam trabalhando a toque de caixa — no flutuante do Lago Paranoá, os turnos são de domingo a domingo —, os prazos de entrega não conseguem acompanhar a demanda. Toda a correria com sistemas emergenciais deve-se aos tropeços em terminar a solução mais definitiva para a crise no abastecimento da Grande Brasília e no Entorno metropolitano: o sistema de Corumbá IV.

Entre paralisações e recomeços, somam-se 10 anos de obra, aditivos constantes e pelo menos R$ 9 milhões em prejuízos econômicos.

 

 

Desde que começou a elaboração da hidrelétrica, no início dos anos 2000, seguida da construção do sistema de produção, a obra viveu um ciclo de paralisações e nunca deixou o status de promessa. O ex-governador Joaquim Roriz chegou a repetir diversas vezes que Corumbá garantiria água por 100 anos. Nesta semana, ocorreu mais um reinício. Os trabalhos na parte da captação — parados desde agosto de 2016 — foram retomados. Entretanto, a passos lentos. O Correio esteve no local e encontrou pouca diferença do cenário de abandono registrado em janeiro, quando a reportagem o visitou.

 

Nove operários limpavam o mato que tomou as estruturas de concreto responsáveis por abrigar as bombas de captação. O barramento feito no passado para conter a água no canteiro e permitir o trabalho dos operários está, justamente, tomado por uma espécie de lodo, que se infiltrou durante o período de abandono. O maquinário ainda não retornou. Durante a solenidade de reabertura da obra, representantes da Companhia Saneamento de Goiás (Saneago) e das empresas Emsa e CCB, à frente do empreendimento, disseram que contratarão mais 100 funcionários para acelerar o processo.

 

O consórcio tem 18 meses para finalizar a empreitada, ou seja, até março de 2019. No entanto, o presidente da Saneago, Jalles Fontoura, é enfático em dizer que todo o sistema estará pronto em 30 de dezembro de 2018.

 

Verba

As idas e vindas do projeto de Corumbá IV trouxeram uma série de prejuízos — desde sociais até financeiros. Valparaíso, cidade próxima ao Lago Corumbá, por exemplo, ainda é abastecida com água de poço. Os reservatórios de Brasília, como os do Descoberto e de Santa Maria, estão com níveis críticos. Em termos financeiros, a obra arrastada agrega aditivos e fica cada vez mais cara. Da parte da Saneago, houve troca de empreiteira e, com o novo consórcio, pelo menos três termos aditivos foram assinados em relação a reajuste anual e reequilíbrio econômico-financeiro da obra. De Goiás, pelo menos R$ 9 milhões a mais estão contabilizados.

 

A Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) informa que a verba prevista — R$ 275 milhões — não tem se alterado, apenas correções monetárias são realizadas. A estatal não divulgou valores das diferenças. No entanto, a parte brasiliense da obra também assistiu troca de empresas que contribuíram para o atraso. Em 2011, a execução do trecho de Água Bruta foi interrompida porque o contrato foi rescindido. A complementação da obra foi licitada em 2015, com previsão para conclusão no fim do ano. A Estação de Tratamento de Água (ETA) também iniciou-se com um acordo assinado em 2013. Com a desistência da contratada, em 2014, a segunda colocada foi convocada, e a obra deve ser entregue no próximo mês.

 

Superfaturamento

Mesmo com os atrasos, Jalles Fontoura, presidente da Saneago, é enfático ao afirmar que a água de Corumbá IV é o seu compromisso com Brasília. Ele também critica os efeitos da Operação Decantação, da Polícia Federal, que investiga corrupção na estatal goiana. “Ela não prendeu ninguém e foi um prejuízo para a população de Brasília, que está sem água. O prejuízo foi maior do que o valor das bombas questionado”, diz. A obra de captação estava parada desde agosto do ano passado, quando o Ministério Público Federal em Goiás (MPF/GO) e a Controladoria-Geral da União questionaram, via Operação Decantação, os valores superfaturados das bombas de captação da água. O parecer do MPF/GO indicava sobrepreço de 388% e recomendava ao Ministério das Cidades que suspendesse os repasses.

 

Em setembro, o Ministério das Cidades voltou a repassar os recursos para a continuação da obra de captação de água após um acordo assinado entre as empreiteiras envolvidas, os órgãos de transparência e controle e a empresa que vendeu as bombas. Por fim, o preço dos equipamentos foi reduzido para menos da metade: de R$ 34,9 milhões para R$ 15,4 milhões. “Vemos agora que a obra ficou até mais em conta com a mudança no preço das bombas”, afirmou o presidente da Saneago.

 

 

Abastecimento

Antes do racionamento, a Caesb captava dos reservatórios brasilienses cerca de 9 mil litros por segundo. Corumbá, sozinha, significará 31% desse número: 2,8 mil, sendo metade para Goiás e outra para o DF. São 173km² de aquífero, capaz de abastecer 1,3 milhão de pessoas. Além do Entorno, em um primeiro momento, o reservatório abastecerá Gama, Santa Maria e Recanto das Emas, regiões mais próximas do sistema, o que diminuirá o preço no transporte da água.

 

 

Palavra de especialista

 

Perspectiva de desenvolvimento

“Devido ao alto custo em transportar água por grandes distâncias, Corumbá IV é uma opção financeiramente viável para as localidades do sudoeste do Distrito Federal. A água que hoje abastece Gama e Santa Maria vem do Descoberto. O mais lógico seria encontrar uma captação mais próxima para diminuir os gastos excessivos. Com a inauguração de Corumbá IV, a Caesb precisa reorganizar o abastecimento para poupar dinheiro e ganhar praticidade. Em uma perspectiva de desenvolvimento, seria importante continuar a parceria com o governo de Goiás. As cidades do Entorno estão em pleno crescimento, e muitas passam por problemas de abastecimento. Águas Lindas e Santo Antônio, por exemplo, devido à localização geográfica, poderiam ser atendidas pelo reservatório do Descoberto” - Oscar Cordeiro Netto, professor do Departamento de Engenharia Civil da UnB

 

Fonte: *Por:Flavia Maia/Pedro Grigori/CB/Clipping

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