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MONITOR DA VIOLÊNCIA: Em uma semana Grande Brasília registra 8 episódios de mortes violentas

Em parceria com Núcleo de Estudos da Violência da USP e Fórum Nacional de Segurança, G1 monitora casos no país. Levantamento registrou crimes durante uma semana; dificuldade em conseguir dados chama atenção.

O Distrito Federal registrou oito mortes violentas durante a semana de 21 a 27 de agosto. Foram sete casos de homicídio e um caso de latrocínio.

Os dados sobre suicídio nesse período não foram divulgados pela Secretaria de Segurança.

Os números integram um levantamento nacional feito pelo G1, que é o ponto de partida em uma parceria com o Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da Universidade de São Paulo (USP) e com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.


Com uma série de iniciativas que envolvem reportagens e análise de dados, o projeto vai fazer o acompanhamento desses e de outros casos de mortes violentas.

 

Distrito Federal

 

Na Grande Brasília, as oito vítimas na semana mapeada foram homens que tinham entre 16 e 44 anos. A maioria dos crimes ocorreu à noite e 75% no fim de semana.

Cinco dos oitos casos aconteceram no domingo (27). Os crimes se deram nas regiões de Samambaia, Gama, Ceilândia, Estrutural, Brazlândia e Fercal.

Pelo menos 60% das vítimas foram mortas na mesma região onde moravam e tinham ligações confirmadas com o uso ou tráfico de drogas. Outro dado é que 37% tinham passagem pela polícia.


O fenômeno, segundo o pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e professor da Universidade de Brasília (UnB) Arthur Trindade, segue um padrão, já que "a maior parte das pessoas que morrem no Distrito Federal tem ficha criminal".

 

"A distância média do local da morte e a casa da vítima é cerca de 400 metros. Ou seja, quem está matando e morrendo mora em locais próximos e se conhece."

Acesso aos dados

 

Para ter acesso aos registros da semana, o G1 buscou informações em órgãos ligados à segurança pública. Questionada sobre as mortes ocorridas na semana de 21 a 27 de agosto, a Polícia Militar informou apenas dois casos. A Polícia Civil divulgou informações quando questionada sobre algum crime específico.


Para justificar o não detalhamento dos dados, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) afirmou que o balanço só é divulgado mensalmente e não haveria "pessoal suficiente para fazer o recorte diário ou semanal". Durante todo o mês de agosto foram 32 homicídios do Distrito Federal, segundo a secretaria.

 

As vítimas

 

Pedro Henrique, 16 anos

A vítima mais jovem, Pedro Henrique Silva Viana morreu em 21 de agosto com quatro tiros. O homicídio foi na frente da casa onde o adolescente morava com a mãe e dois irmãos, no Setor Leste do Gama.

Pedro Henrique Viana, 16 anos, morto na porta de casa, no Gama (Foto: Arquivo pessoal)

Pedro Henrique Viana, 16 anos, morto na porta de casa, no Gama

Testemunhas que passavam pela quadra 31 – onde aconteceu o crime – disseram aos policiais que, possivelmente, foi um “acerto de contas”. No local, militares que fizeram o isolamento da área encontraram quatro cápsulas de munição calibre .40 próximas ao corpo.

No mesmo dia o G1 esteve no local para conversar com parentes do jovem. Uma tia de Pedro Henrique, que preferiu não se identificar, disse que o sobrinho tinha "problemas com drogas" e devia dinheiro a outras pessoas.

 

"O Pedro Henrique morreu porque devia R$ 80!"

 

Na escola onde estudava, os amigos falaram de um adolescente "brincalhão e com um bom relacionamento com os colegas". Pedro deixou a sala de aula há um ano, enquanto cursava o sétimo ano do ensino fundamental.

O caso está sendo investigado pela 14ª Delegacia de Polícia do DF. Um mês após o homicídio, os suspeitos pelo assassinato ainda não tinham sido presos.

Isaías Nascimento Leite

O roubo de um celular está sendo investigado como a causa da morte de Isaías Nascimento Leite. A idade do jovem não foi revelada. O corpo foi encontrado no domingo, 27 de agosto, em um local conhecido como Catingueiro, na Fercal.

Nesse mesmo dia, outras quatro mortes consideradas violentas foram registradas no DF. A de Isaías foi a única caracterizada como latrocínio – roubo seguido de morte.

De acordo com a Polícia Civil, Isaías voltava de uma festa quando foi abordado por assaltantes. Ele foi morto com um tiro na cabeça, disparado de uma distância mínima, "à queima roupa", segundo os policiais. Um laudo preliminar dos peritos mostrou que a vítima estava com uma corda amarrada no pescoço e “teve a cabeça golpeada diversas vezes, sofrendo fraturas múltiplas no crânio e maxilar”.

No mesmo dia testemunhas encontraram o carro de Isaías parado na BR-050 – que liga o estado de Goiás à Minas Gerais. No veículo faltavam peças e havia um extintor “amassado e com mancha de sangue”. As investigações estão à cargo da 35ª Delegacia de Polícia e ninguém foi preso até a publicação desta reportagem.

Daniel Hills Duraes

Daniel Hills, 24 anos, foi morto com um tiro na nuca em Ceilândia em 25 de agosto.  (Foto: Arquivo pessoal)

Daniel Hills, 24 anos, foi morto com um tiro na nuca em Ceilândia em 25 de agosto.


Um assassinato com um tiro na nuca, às 11h de uma sexta-feira (25 de agosto). Daniel Hills Duraes, de 24 anos foi morto enquanto dirigia o carro na QNN 3, em Ceilândia Norte, no DF. O caso está sendo investigado na 15ª Delegacia de Polícia como homicídio.

Até a publicação desta reportagem, o laudo da perícia foi feita no local não havia ficado pronto. Segundo o delegado André Leite, a vítima já tinha passagens pela polícia por furto, roubo e tentativa de homicídio.

A Polícia Civil informou ao G1 que um irmão de Daniel– que se sabe apenas o primeiro nome, Inácio – foi morto também em agosto, na mesma quadra onde o corpo do jovem foi encontrado. Os policiais não confirmam a relação de autoria entre os casos mas dizem que “não descartam a hipótese”.

Violência no "quadrilátero"

 

Em relação as oito mortes apuradas pelo G1 durante a semana de 21 a 27 de agosto, o pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Arthur Trindade chama a atenção para o número considerado "baixo" em relação à média semanal registrada no DF. Segundo Trindade, nos últimos dois anos foram 12 assassinatos por semana.

De acordo com o levantamento do Fórum, nos dias úteis o Distrito Federal registra em média dois homicídios por dia e, em torno de quatro mortes diárias aos fins de semana. O pesquisador destaca, no entanto, que cada semana tem uma característica típica.

 

"Sabemos que em meses mais quentes ou em épocasde férias há mais homicídios do que em outros. Já em fins de semana de chuva morre menos gente." ,

 

Em relação ao perfil das vítimas de mortes violentas no DF, o estudioso considera que a capital federal segue o perfil nacional de vulnerabilidade, de homens jovens, entre 15 e 29 anos, negros, de baixa renda e moradores de bairros de periferia.

"É um fenômeno mundial os homicídios serem concentrados. As mortes não se distribuem aleatoriamnente no espaço urbano. Alguns poucos bairros respondem pela maioria dos homicídios, é uma questão de dinâmica da comunidade", diz Trindade.

Policiais realizam abordagem em homem na região central de Brasília (Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília)

Policiais realizam abordagem em homem no centro de Brasília 

 

Há solução?

 

A análise de Trindade sobre a criminalidade no Distrito Federal mostra que apesar dos índices de violência, até 2018 pode haver uma queda no número de mortes registradas na capital federal. O estudioso cita a expectativa de redução na ordem de 40%, no comparativo com 2014.

A hipótese do pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública para a queda nos números de homicídios na Grande Brasília se baseia no que ele chama de "inteligência policial". Trindade avalia que a mudança na forma de investigação dos crimes contribui para pensarmos em uma região mais segura a partir do próximo ano.

"A Polícia Civil passou a investigar a morte de um garoto de gangue, por exemplo, de forma diferenciada", explica Trindade. "Ao invés de prender somente o agressor, agora indicia outros membros do grupo por formação de quadrilha, já que a morte de um deles geraria pelo menos outras nove mortes por vingança."

O pesquisador explica, no entanto, que "prender os autores dos crimes é fundamental", mas destaca que só a política repressiva não funcionaria.

"Essa ação [repressiva] tem que vir acompanhada por uma política social de prevenção. Via de regra as ações sociais são poucas e sem coordenação. Também não são avaliadas corretamente. Gasta-se muito dinheiro para pouca efetividade."

 (Foto: Arte/G1)

 

Fonte: *Via G1/Clipping

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