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COTAS RACIAIS: Universidade de Brasília tem mais estudantes negros que brancos

Levantamento aponta que, desde 2015, soma de estudantes que se declaram pretos e pardos é superior aos brancos. Cotas são principal motivo, diz pesquisadora; professores negros ainda são minoria.

O número de estudantes de graduação da Universidade de Brasília (UnB) que se declaram negros – pretos ou pardos pela classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – cresceu nos últimos cinco anos, segundo levantamento do Observatório da Vida Estudantil da UnB, que coleta dados semestrais. O grupo representa 50,6% dos alunos matriculados no segundo semestre de 2017 – desde 2015, eles são maioria.


Por outro lado, os professores pretos e pardos são minoria na UnB. De acordo com a pesquisadora do observatório Layla Teixeira, o número não ultrapassa 2% do corpo docente. Segundo ela, "a universidade continua sendo um espaço da reprodução das hegemonias."

Entre os estudantes, afirma Layla, a "virada" se deu por causa do sistema de cotas adotado em 2003 e aprimorado em 2013. Desde então, as pesquisas do Observatório da Vida Estudantil mostram que a presença de alunos negros cresce ano a ano.

"[A UnB] começa a se aproximar da realidade do Brasil."

 

Os números apontam que entre 2012 e 2017, os alunos pardos passaram de 33,7% para 40% do total de aprovados. Já os pretos, subiram de 8,6% para 10,6%. Inversamente, nesses 5 anos, o número de estudantes brancos caiu de 53,6% para 46,5% .

Estudantes pretos, pardos e indígenas da UnB

Número de alunos 1.0831.0833633631.9601.9602.5092.5092.4062.40620132014201520162017050010001500200025003000
2014
Anos 363
Fonte: Observatório da Vida Universitária da UnB

Sistema de Cotas

 

Em 2003, a UnB foi a primeira universidade federal do país a reservar 20% das vagas para estudantes negros. A partir de 2013, todas as instituições de ensino superior do país tiveram que adotar o sistema gradualmente, de 12,5% para 50% até 2017 para atender a critérios étnico-raciais e de renda (entenda como funciona ao final da reportagem).Estudante sentado em anfiteatro da Universidade de Brasília (UnB) (Foto: Secom UnB/Divulgação)

A professora Layla Teixeira também chama a atenção para a importância do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) na democratização do acesso ao ensino superior. "Houve uma mudança no formato de avaliação, que agora é mais analítica e menos conteudística, mais até que o PAS e o vestibular."

Segundo ela, quando o Enem é usado como forma de ingresso na UnB – no início de cada ano – há um número maior de estudantes que vivem fora do Plano Piloto, em Brasília, e até fora do DF do que meio do ano, quando o vestibular é a única forma de conseguir uma vaga.

Os números revelam que o Enem reduziu a estratificação social no acesso ao ensino, explica a pesquisadora. "O Programa de Avaliação Seriada (PAS) [feito ao final de cada ano do ensino médio] estratifica ainda mais que o vestibular, porque o estudante precisa estar com tudo alinhado três vezes."

Para Layla, "o sistema de cotas e o Enem permitem que estudantes socialmente vulneráveis – por questões econômicas ou por discriminação racial – tenham chance de participar do meio acadêmico, tradicionalmente ocupado por uma elite branca e rica".

 

"A gente tem um problema de estratificação gravíssimo. Mas, pra resolver isso, é preciso resolver também a representatividade racial, que só acontece com a ocupação dos espaços."

Minorias

 

Apesar dos dados positivos entre os estudantes de graduação da Universidade de Brasília, a pós-graduação e o corpo de professores não acompanham critérios de cotas e estão longe de alcançar o mesmo grau de representatividade da população negra e indígena, diz a pesquisadora.

"O número de professores pretos e pardos não ultrapassa 2%, sem falar que os docentes e dicentes indígenas são completamente invisibilizados", explica Layla. Segundo ela, ainda há poucas políticas públicas voltadas para os índios e, desde o ensino médio, essa parcela da população é negligenciada. O número de indígenas que ingressa na UnB pelo sistema de cotas mantém média de 0,6% desde 2012.

Nas pós-graduações da universidade, a aplicação do sistema de cotas é facultativa. Isso significa que cada instituto tem autonomia para adotar ou não e para escolher qual o percentual que quer destinar a estudantes pretos, pardos, indígenas e de baixa renda.

A pesquisadora afirma que "ainda há certa resistência das elites políticas para abrir as portas das universidades por uma questão de poder". Para ela, uma das funções [do ensino superior] é a formação das elites diretoras do país.

"A universidade é uma política de transferência de renda e, claro, a tendência acaba sendo pela restrição ao acesso", diz ela.

Desigualdade de gênero

Alunas da Universidade de Brasília marcham no ICC em manifestação contra violência sexual contra mulheres (Foto: Beatriz Pataro/G1)A desproporcionalidade numérica entre os perfis de estudantes e professores das universidades públicas também se aplica à questão de gênero, segundo a pesquisadora Layla Teixeira. Na Universidade de Brasília, por exemplo, ela aponta um predomínio feminino nas ciências sociais e um número maior de homens nas exatas, como as engenharias.

Nas áreas da saúde, como enfermagem, farmácia e odontologia, as mulheres são maioria, segundo levantamento do Observatório da Vida Estudantil, com 76% das vagas no último vestibular. "Somente em medicina há um ligeiro predomínio masculino", destacou.

 

"Ainda existe uma desigualdade por curso que é muito grande e isso, provavelmente, vem de uma educação de gêneros."

 

"Meninos e meninas continuam sendo direcionados para uma área ou outra a partir de esteriótipos contruídos socialmente. Não se pode anular a identidade de gênero, mas é necessário eliminar a hierarquia entre as identidades", afirma.

 

"Não convença as meninas de que elas não têm capacidade de raciocínio e que têm 'jeito' para cuidar. É um trabalho de base forte que começa dentro das nossas casas."

Entenda as cotasParticipantes da marcha das mulheres negras diante do Congresso Nacional, em novembro do ano passado; foto compõe a exposição na UnB (Foto: UnB/Divulgação)

As universidades e instituições públicas de ensino superior do país são obrigadas a adotar o sistema de cotas desde 2013. Até o final deste ano, todas elas devem oferecer 50% das vagas para estudantes de escolas públicas, pretos, pardos e indígenas.

Dentro deste percentual, metade é destinada a candidatos de escola pública cuja renda média familiar é igual ou menor que um salário mínimo e meio. A outra metade, é também para estudantes de escola pública, mas com renda familiar superior a um salário mínimo e meio.

Para ambos os casos, deve ser reservado um percentual mínimo correspondente à soma de pretos, pardos e indígenas no estado, segundo último censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

 

 

Fonte: *Via G1/Clipping

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