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MEIO SÉCULO: Invasão militar mais violenta à UnB faz 50 anos; Honestino foi '"arrastado, carregado e muito espancado", diz amigo

Em agosto de 1968, líder estudantil foi um dos 60 presos pelo Exército. Corpo continua desaparecido.

"Honestino Guimarães foi muito torturado e, pior, foi morto pelos militares." Foi com esta lembrança que o aposentado e ex-aluno da Universidade de Brasília Cláudio Antônio de Almeida resumiu a terceira – e mais violenta – invasão militar à UnB, em 29 de agosto de 1968. Nesta quarta-feira, 50 anos depois do episódio, ele conversou com o G1 sobre as marcas que ficaram daquele tempo.

 

"Fui para a aula de economia e, 30 minutos depois, começou a gritaria: 'Prenderam o Honestino! Levaram o Honestino!"

 

Honestino Guimarães desapareceu em 1972 e foi dado como morto somente 24 anos depois. O corpo dele nunca foi entregue à família.

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Documento de identificação de Honestino Guimarães no curso de futurologia ministrado por Gilberto Freyre na UnB 

"Saímos da sala, mas ele já tinha sido levado pela polícia. Foi arrastado, carregado e muito espancado", lembra o amigo de infância do ex-líder estudantil. "Era um ato que já estava preparado há muito tempo, porque o governo precisava justificar o AI 5 [ato institucional que, entre outras medidas, deu plenos poderes ao presidente]".

Aos 75 anos, Almeida acredita que a invasão também tenha sido motivada pelo que o Estado considerava "rebeldia dos estudantes da UnB", uma das universidades mais engajadas do país à época.

Cláudio de Almeida (centro), aos 22 anos, sendo preso durante invasão militar à UnB em 1968 (Foto: Arquivo pessoal)
Cláudio de Almeida (centro), aos 22 anos, sendo preso durante invasão militar à UnB em 1968 (Foto: Arquivo pessoal)

Os dois, estudantes e ativistas, foram presos aos 22 anos pelos militares durante a invasão. O aposentado conta que, na época, viu Honestino "muito machucado, mas sem dizer uma palavra". Em seguida, ele próprio acabou detido por policiais e levado para uma das cadeias no Setor Militar Urbano (SMU).

 

"Não nos deixavam dormir, jogavam água na gente e os coronéis nos interrogavam dia e noite. Estava esgotado, sem comer ou dormir. Tudo isso na base de pancadas."

 

Preso, Almeida lembra que foi levado para a mesma cela onde estava Honestino, "que tinha sido torturado", afirma. "Ele ficou preso por muito tempo nas dependências do Exército."

 

"Atualmente, ali no SMU, prefiro nem passar, porque são as piores lembranças da minha vida."Placa da UnB em 1968 no campus Darcy Ribeiro, Asa Norte (Foto: TV Globo/Acervo)
Placa da UnB em 1968 no campus Darcy Ribeiro, Asa Norte (Foto: TV Globo/Acervo)

 

A invasão de 1968

 

A Universidade de Brasília sofreu quatro invasões durante a ditadura militar: em 1964, 1965, 1968 e 1977.

No ataque de 1968, agentes das polícias Militar, Civil, Política (Dops) e do Exército invadiram a UnB e detiveram mais de 500 pessoas na quadra de basquete. Sessenta delas acabaram presas.

O estudante Waldemar Alves foi baleado na cabeça e passou meses em estado grave no hospital.

Daquela vez, os estudantes protestavam principalmente contra a morte do secundarista Edson Luis de Lima Souto, assassinado por policiais militares no Rio de Janeiro.

Cerca de 100 mil pessoas participam de passeata pelo fim da ditadura militar após morte de Edson Luis (Foto: Divulgação)
Cerca de 100 mil pessoas participam de passeata pelo fim da ditadura militar após morte de Edson Luis (Foto: Divulgação)

As invasões só se encerraram com o início da abertura política no Brasil. Em 1979, o Congresso aprovou a Lei de Anistia, que perdoou os crimes políticos cometidos desde 1961, mas a democracia na UnB só foi retomada em 1984, com a eleição de Cristovam Buarque para a reitoria.

 

Meio século depois

 

Procurada pela reportagem para comentar a invasão militar de 1968, a Universidade de Brasília disse "não possuir registros que embasassem o que ocorreu no período".

No entanto, o Arquivo Central da instituição apresentou atos assinados pela reitoria que, na época, proibiam reuniões estudantis, determinavam a desobstrução das vias de acesso ao campus e a suspensão das aulas meses antes da invasão (veja abaixo).

Ato editado pela reitoria da UnB, em 1968, proibindo reuniões no campus (Foto: Arquivo Central/UnB)

Ato editado pela reitoria da UnB, em 1968, proibindo reuniões no campus (Foto: Arquivo Central/UnB)

"Entretanto, os documentos não trazem consigo detalhes dos eventos que os motivaram, podendo não estarem relacionados com tumultos ou invasões", ponderou o departamento em nota enviada ao G1.

Apesar da inconsistência dos registros, a universidade vai promover um seminário sobre o tema nesta quarta (29).

O evento "50 anos de 1968 na UnB" reunirá pesquisadores, reitores de universidades federais e estudantes da instituição.

Será às 18h30, no campus Darcy Ribeiro, na Asa Norte – o mesmo alvo da invasão de meio século atrás.

Militares na UnB em 1968 (Foto: TV Globo/Acervo)
Militares na UnB em 1968 (Foto: TV Globo/Acervo)

 

Prisão de Honestino

Cinco décadas depois, o assunto ainda é um tema sensível na família de Honestino. O sobrinho dele, Mateus Guimarães, de 35 anos, não era nascido na época do desaparecimento, mas afirma que o assunto é constante na casa.

"Foi a última prisão dele em Brasília e foi a que ele permaneceu preso por mais tempo", lembra. "Nossa busca agora é sempre manter essa memória acesa, porque é fundamental não só para nossa família, mas para o país".

Juliana e Mateus Guimarães, filha e sobrinho do ex-líder estudantil Honestino Guimarães (Foto: Luciana Amaral/G1)
Juliana e Mateus Guimarães, filha e sobrinho do ex-líder estudantil Honestino Guimarães

"Vemos tantas pessoas por aí defendendo, de forma leviana, a volta da ditadura, sem entender o que se passou."

Apesar das pesquisas sobre o tema, Mateus afirma, ainda assim, buscar mais informações sobre o desaparecimento e morte do "tio Gui" para, então, "poder escrever as últimas páginas da vida dele que estão em branco".

Linha do tempo com a trajetória de Honestino Guimarães (Foto: G1 DF)
Linha do tempo com a trajetória de Honestino Guimarães 

 

História de um estudante

Honestino Monteiro Guimarães nasceu em 28 de março de 1947 em Itaberaí, no sul de Goiás. Mudou-se com a família para Brasília ainda em construção, em 1960. Morou na W3 Sul e na 405/406 Norte.

Gui, como era conhecido pelos amigos, terminou o ensino fundamental e começou ensino médio no Centro de Ensino Elefante Branco, em atividade até hoje. Em 1964, transferiu-se para o Centro Integrado de Ensino Médio (Ciem), que não existe mais.

Foi nessa época que ele passou a integrar a organização clandestina Ação Popular (AP). Em 1965, antes de completar 18 anos, prestou vestibular da UnB para geologia e foi o primeiro colocado. A atividade política começou a se intensificar.

Militares nas ruas, em 1968 (Foto: TV Globo/Acervo)
Militares nas ruas, em 1968 (Foto: TV Globo/Acervo)

Preso inúmeras vezes por pichar muros e participar de greves e manifestações contra o regime militar, foi preso e expulso da UnB em 1968. Com a edição do Ato Institucional 5 – que suspendia a garantia de habeas corpus nos casos de crimes políticos – passou a viver clandestinamente.

Casou-se e mudou-se com a mulher, Isaura Coelho, para São Paulo. Depois do nascimento da filha Juliana, separou-se de Isaura e foi viver no Rio de Janeiro em 1971. No mesmo ano, assumiu a presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE). Foi preso pela última vez em 1973, no Rio, e nunca mais foi visto.

 

Pedido de desculpas

Segundo uma biografia no site mantido pela família, Honestino nunca participou de ações armadas. Apesar da perseguição policial, mandava cartas para parentes e amigos, mantinha contato com a mãe e os irmãos, e visitava a filha com frequência.

"Honestino entrou nessa luta toda porque amava demais. Era o amor genuíno pelas pessoas que o fazia sentir a dor do outro", diz o sobrinho.

 

Fonte: *Via G1/Clipping

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