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OPERAÇÃO PRAIA DE GOA: Escutas indicariam participação de mais membros do GDF

As conversas interceptadas pela Polícia Civil com autorização da Justiça no âmbito da Operação Praia de Goa, deflagrada em setembro, podem indicar que o ex-secretário de Meio Ambiente Igor Danin Tokarski não seria o único membro do alto escalão do Governo do Distrito Federal que atuava para favorecer o grupo de empresários.

 

A ação policial investiga a concessão de benefício de R$ 3,7 milhões do Executivo local à R2 Produções, responsável pelo Na Praia.

Na decisão do juiz André Ferreira de Brito, da 2ª Vara Criminal de Brasília, que autorizou a operação de busca e apreensão na casa de Tokarski, na última terça-feira (16/10), o magistrado constatou a presença de elementos que, segundo ele, levam a crer que outros agentes públicos atuaram em benefício da R2.

“Foram coletados elementos que indicam a existência de indícios da influência de cargos na administração pública com vistas a facilitar a tramitação de processos administrativos e capacitação de recursos de forma indevida pelo grupo em investigação, além de conferirem exclusividade de espaços ao grupo em questão”, aponta o magistrado no despacho.

Jp Rodrigues/Especial para o Metrópoles

Para embasar o apontamento, o magistrado apresenta trechos de transcrições das interceptações telefônicas feitas pela Polícia Civil.

Nas conversas presentes nos autos, são citados funcionários da Administração do Plano Piloto e gestores da Administração do Lago Norte e da Secretaria de Turismo.

Em um dos trechos transcritos, dois empresários conversam sobre a possibilidade de pedir “ajuda” ao secretário de Turismo. A pasta é chefiada por Jaime Recena desde 2015. No entanto, o nome de Recena não foi citado textualmente e ele não é alvo da investigação. A conversa ocorreu entre Gilberto Júnior, diretor financeiro da R2, e um homem identificado apenas como “Daniel”.

No diálogo interceptado, a dupla fala sobre tentativas de reduzir os valores cobrados para a realização do Baile do Dennis, um dos eventos organizados pela R2 Produções.

 

É quando um deles sugere procurar o secretário e diz que Recena já teria ajudado em outra ocasião.

 

No inquérito policial, o trecho em questão relata exatamente o seguinte: “Daniel fala que se mudar alguma coisa a gente pode fazer interferência junto à Setur (Secretaria de Turismo), a gente fala pro secretário ir lá ajudar, que ele já fez com a Funn e agora vai fazer com a gente. Cai pelo menos uns 100 mil.”

Confira a íntegra da transcrição:

 

Em outro trecho apresentado pelo juiz na decisão, o sócio da R2 Bruno Sartório conversa com o produtor Agnaldo Silva sobre uma possível interferência junto à Administração do Lago Norte. “Agnaldo diz que está ligando pro Rafa pra saber se ele já resolveu a vida dele com o administrador do Lago Norte, que o cara fez o pagamento cair para R$ 17.100,00 a área pública”.

O sócio da R2 responde que “tem que saber fazer o trem”. Agnaldo, então, diz que “é pra ligar pro cara porque ele segura a onda, que tem que convidar o cara, que sabe que está todo mundo com a cabeça a mil, mas não pode deixar de fazer”.

Confira a íntegra do diálogo:

 

Um dos administradores do Lago Norte no período investigado, de 2015 a 2018, é Marcos Woortmann. Ele foi apontado como um dos interlocutores do Palácio do Buriti no esquema de tráfico de influência investigado pela Operação (12:26). Na última sexta-feira (19), no entanto, o promotor de Justiça Roberto Carlos Silva pediu o arquivamento da apuração.

Outro lado
Por meio de nota, a Secretaria de Esporte, Turismo e Lazer do Distrito Federal informou que “não é da sua competência a cobrança de utilização de área pública no local onde ocorre o evento Na Praia e nem a emissão de alvará de funcionamento para empreendimento nenhum. Esses processos não passam pela secretaria. São de responsabilidade de outros órgãos do governo”.

A Administração do Lago Norte disse que “a cobrança do preço por utilização de área pública é realizada de acordo com a autorização emitida pela proprietária da área, que, aparentemente no caso referido, é a Terracap. A administração regional faz a cobrança de acordo com a tabela de preço público, publicada anualmente no Diário Oficial, onde são determinados os valores referentes a utilização de área pública”.


A R2 Produções também se manifestou por meio de nota, na qual “reitera a legalidade e a transparência de todas as suas atividades”. Sobre as investigações, afirmou que “os sócios estão à disposição das instituições a qualquer momento, ressaltando que até hoje a empresa não teve acesso aos autos, caracterizando o cerceamento da defesa, uma garantia sagrada assegurada pela Constituição”.

O advogado de defesa de Igor Tokarski, Marcelo Turbay, informou que o ex-administrador do Plano Piloto “nunca teve qualquer influência ou atribuição funcional sobre a concessão da verba citada ou qualquer outro benefício da lei de incentivo à cultura para a produtora mencionada ou qualquer outra empresa”.

Procurado, o GDF não se manifestou sobre os trechos que citam a Administração do Lago Norte.

Praia de Goa
Em 18 de setembro, dia em que foi deflagrada a Operação Praia de Goa, os policiais apreenderam documentos na Administração do Plano Piloto, em casas de servidores e em outros órgãos públicos.
O grupo é investigado por organização criminosa, estelionato e lavagem de dinheiro. De acordo com a PCDF, o inquérito teve início em 2017, durante a gestão Rollemberg, com a suspeita de desvio de recursos que deveriam ser usados em projetos sociais por meio da Lei de Incentivo à Cultura.

Com base em diligências da polícia, grande parte dos gastos custeados com os recursos da lei foi empregada na aquisição de estruturas para os eventos. No entanto, os investigadores concluíram que havia sobrepreço nos equipamentos. Por exemplo, teria sido comprovado que um gerador foi adquirido por um valor superfaturado em 59%.

Além disso, a R2 Produções, conforme dados da Polícia Civil, alegava gastar dinheiro para comprar tendas, suportes e outras estruturas para os projetos ditos sociais, mas, na verdade, tudo isso já existia no evento principal.

Ministério Público de Contas
As denúncias que deram origem à Operação Praia de Goa também estão sendo apuradas pelo Ministério Público de Contas do Distrito Federal (MPC-DF). Chamou atenção do órgão de controle a participação da ex-funcionária da Secretaria de Cultura Moema Gomes de Faria no quadro de empresa ligada à R2.

Segundo a representação do MPC-DF, assinada pelo procurador substituto Marcos Felipe Pinheiro Lima, um dos sócios da R2, organizadora do Na Praia Social, aparece como gestor financeiro do Na Praia Cultural, cuja proponente é a sociedade empresária Banda Fura Olho Ltda., atual Ipê Entretenimento.

O Ministério Público de Contas identificou que a alteração do nome empresarial se deu após a aquisição das cotas da empresa, em 25 de maio de 2017, por parte de Moema Gomes de Faria, que era coordenadora de Fomento e Incentivo Cultural da Secretaria de Cultura, cargo do qual foi exonerada em 3 de março de 2016.(*Por:Lilian Tahan/Gabriela Furquim)

 

Fonte: *Via Metropole/Clipping/Grande Angular

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