Projeto desenvolvido na Universidade Católica de Brasília com apoio da FAPDF investiga como a prática orientada de atividade física pode contribuir para a qualidade de vida durante a hormonioterapia.
A decisão de estudar o impacto do exercício físico em mulheres em remissão do câncer de mama nasceu de experiências pessoais marcantes na vida da professora Gislane Ferreira de Melo.
A perda de familiares e de uma orientadora para a doença despertou nela o desejo de compreender não apenas os efeitos físicos do câncer, mas também as dimensões emocionais e sociais que acompanham essa jornada.
Hoje, essa vivência se transforma em ciência. Professora dos programas de pós-graduação em Educação Física e em Psicologia da Universidade Católica de Brasília (UCB), Gislane coordena, com fomento da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF), o projeto que investiga como a prática orientada de exercícios físicos pode amenizar os efeitos colaterais da hormonioterapia e melhorar a qualidade de vida de mulheres em fase de remissão.
O câncer de mama é o tipo de câncer que mais mata mulheres no Brasil e, mesmo após o término das etapas mais agressivas do tratamento — como cirurgia, quimioterapia e radioterapia — muitas pacientes ainda precisam conviver, por anos, com os efeitos colaterais da hormonioterapia.
Dores articulares, fadiga crônica, alterações de humor, distúrbios do sono e impacto na vida social fazem parte da rotina de milhares de mulheres em fase de remissão da doença.
É nesse contexto que se insere o projeto “Interação entre Exercício Físico e Hormonioterapia em Mulheres em Remissão do Câncer de Mama”, desenvolvido na UCB, com apoio da FAP-DF por meio do edital Demanda Espontânea (2024). A iniciativa investiga de forma integrada como um protocolo estruturado de exercícios físicos pode amenizar os efeitos colaterais do tratamento hormonal e contribuir para o bem-estar físico, emocional e social dessas mulheres.
Origem internacional e impacto local
O projeto é inspirado no programa internacional Get Real & Heel, desenvolvido há mais de 15 anos na University of North Carolina at Chapel Hill (UNC), nos Estados Unidos. A partir dessa experiência, a pesquisadora foi autorizada a implementação do protocolo no Brasil, dando origem ao Get Real & Heel Brasil, que passou a funcionar de forma contínua na UCB.
Atualmente, o programa atende a cerca de 30 mulheres sobreviventes do câncer de mama — muitas delas em uso de hormonioterapia, oferecendo sessões gratuitas de exercício físico supervisionado, três vezes por semana, com duração média de uma hora e meia.
Exercício como estratégia terapêutica
O diferencial do projeto está na abordagem personalizada e no acompanhamento multiprofissional das participantes.
Antes de iniciar as atividades, cada mulher passa por uma avaliação ampla, que inclui histórico clínico e oncológico, tipo de tratamento realizado, uso de medicamentos, além de avaliações físicas, funcionais, psicológicas e sociais.
As sessões combinam exercícios aeróbicos, treinamento de força, atividades de mobilidade, equilíbrio e flexibilidade.
A intensidade e o volume dos exercícios são ajustados individualmente, respeitando as limitações e necessidades de cada participante, sempre com monitoramento contínuo de sinais vitais, percepção de esforço, presença de dor e resposta ao treinamento.
Segundo a coordenadora, o exercício físico deixa de ser uma atividade genérica e passa a atuar como uma estratégia terapêutica não farmacológica, integrada ao cuidado em saúde, especialmente importante durante o longo período de uso da hormonioterapia.
Acompanhamento integral
Além dos ganhos físicos, o projeto acompanha de forma sistemática os impactos psicológicos, biológicos e sociais da prática de exercícios. São avaliados indicadores como ansiedade, depressão, autoestima, imagem corporal, qualidade do sono, qualidade de vida, suporte social e medo de recorrência da doença.
O estudo também analisa biomarcadores moleculares e inflamatórios, além de utilizar ferramentas de inteligência artificial e machine learning para identificar padrões, interações entre variáveis e respostas ao treinamento ao longo do tempo.
Essa abordagem permite compreender a saúde das participantes como um processo dinâmico, influenciado pela interação entre tratamento medicamentoso, exercício físico e contexto psicossocial.
“Observamos, ao longo do acompanhamento, que muitas mulheres chegam às sessões com dores, cansaço extremo e fragilidade emocional, mas saem com outra disposição, outro humor e mais confiança em seus corpos. O exercício físico passa a ser um recurso de enfrentamento, de reconstrução da autoestima e de retomada da autonomia”, destaca a pesquisadora.
Na prática, essas transformações se refletem em maior adesão ao tratamento, melhora da capacidade funcional, retomada de atividades cotidianas e fortalecimento do senso de pertencimento e de apoio mútuo entre as participantes.
Os impactos também se estendem ao bem-estar emocional. Muitas mulheres relatam redução de sintomas de ansiedade e depressão, aumento da autoestima, ressignificação da imagem corporal e maior confiança em seus próprios corpos após o tratamento oncológico.
O projeto promove a construção de vínculos afetivos duradouros entre as participantes, formando uma rede de apoio baseada na escuta, na troca de experiências e no sentimento de pertencimento
No aspecto social, o projeto promove a construção de vínculos afetivos duradouros entre as participantes, formando uma rede de apoio baseada na escuta, na troca de experiências e no sentimento de pertencimento. Atualmente, o programa apresenta índices mínimos de faltas e não registra desistências, reflexo do modelo de acolhimento adotado.
Benefícios para o Distrito Federal
Além do impacto direto na vida das participantes, o projeto contribui para a formação de estudantes de graduação e pós-graduação, fortalece a produção científica na área da oncologia do exercício e gera dados que podem subsidiar políticas públicas de saúde.
Entre os desdobramentos previstos estão a realização de palestras em hospitais do Distrito Federal, a divulgação científica dos resultados e a possibilidade de implantação de programas semelhantes como estratégia complementar ao tratamento oncológico na rede pública de saúde.
Para o diretor-presidente da FAP-DF, Leonardo Reisman, iniciativas como essa destacam o papel da pesquisa aplicada na promoção da saúde e da qualidade de vida da população. “A FAP-DFtem como missão apoiar projetos que transformem conhecimento científico em impacto social. Este estudo reúne ciência de excelência, inovação e cuidado humanizado, com benefícios concretos para as mulheres do Distrito Federal.”
Para Gislaine, a iniciativa tem potencial para se tornar um modelo de referência em cuidado integral e humanizado para mulheres em remissão do câncer de mama, articulando pesquisa, extensão, formação de recursos humanos e impacto social.
Além das atividades físicas, o projeto promove momentos de integração e convivência, fortalecendo a rede de apoio e o sentimento de pertencimento entre as mulheres acompanhadas
A coordenadora ressalta que o apoio da fundação foi decisivo para que a iniciativa pudesse se consolidar como um projeto contínuo, articulando pesquisa, extensão e formação de recursos humanos. “O financiamento permitiu a aquisição de materiais e equipamentos, a formação da equipe, a realização das avaliações clínicas, físicas e psicológicas, além da viabilização da coleta sistemática de dados ao longo do acompanhamento das participantes”, destaca.
O fomento ainda garantiu condições institucionais para transformar a iniciativa em uma ação de longo prazo, com impacto social, científico e formativo no Distrito Federal.
